O Plano Real faz 19 anos. Para quem não sabe, e muitos que hoje lêem este site nem haviam nascido em 1994, foi o plano que estabilizou nossa economia, acabando com a inflação galopante que vinha de dois governos (Sarney e Collor – ambos hoje aliados do governo petista).
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O PT foi contra o Plano Real mesmo ANTES de seu lançamento (ocorreria no dia 01/07/1994). E o principal opositor era ninguém menos que Guido Mantega, atualmente Ministro da Fazenda. Vejam que graça (como estão no arquivo da FSP, é preciso ser assinante para acessar o conteúdo integral):
Folha de São Paulo, 29/03/1994, texto assinado por Guido Mantega e Aloízio Mercadante:
“Os dilemas do real – O ministro Fernando Henrique Cardoso até que tentou inovar, apresentando o Plano Real com bastante antecedência e não se furtando a aparições públicas para explicá-lo, a despeito das indefinições e muitas dúvidas que deixou no ar, sobretudo em relação à chamada fase três. Entretanto foi um diálogo de surdos, sem consequências práticas, que não levou a nenhuma alteração do plano e muito menos ao engajamento de setores sociais expressivos na sua implementação. O presidente da Força Sindical, Luiz Antônio de Medeiros, entrou de gaiato, chegou a esboçar simpatia pelo plano, mas acabou precipitando uma greve da sua categoria, tão logo se deu conta das consequências sobre o bolso dos trabalhadores. Um eventual apoio dos trabalhadores ficou comprometido quando tomou-se conhecimento de que havia uma regra de conversão para a URV sob medida para os salários, consolidando as perdas de uma política salarial impingida pelo próprio ministro da Fazenda (que dava menos 10% da inflação do mês ao longo do quadrimestre), sob ameaça de demissão, enquanto os preços ficariam livres para reinar no mercado (…) Outra teria sido a trajetória do plano caso o governo tivesse-se discutido as regras de conversão com as centrais sindicais, com o patronato, funcionalismo público, obtido um acordo e, no mínimo, aplicado a mesma metodologia para salários, preços, contratos, mensalidades, planos de saúde e, não esqueçamos, tarifas, que continuam subindo acima da inflação (…) A dolarização é hoje uma saída fácil que prescinde de negociações e de controle social de preços, com alguns resultados favoráveis no curto prazo e efeitos desastrosos no futuro, criando um clima propício para mais um estelionato eleitoral.” (grifos nossos)
Basicamente, chamaram o Plano Real de ESTELIONATO ELEITORAL. O texto é imenso, várias laudas, dois economistas tidos como sumidades do PT explicando detalhadamente um fracasso que nunca houve.
Merece leitura em retrospecto a coluna de Clovis Rossi de junho de 1994:
“Com real, PT e PMDB gritarão “estelionato” – Os dois principais adversários da candidatura de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), suposto beneficiário de uma inflação baixa, já preparam o grito de “estelionato eleitoral”. “É evidente que para nós é estelionato”, antecipa-se Marco Aurélio Garcia, coordenador do programa de governo do PT. “É um conto-do-vigário e o criminoso não pode nem vai se beneficiar do crime”, ecoa Orestes Quércia (…) “Não podemos nos limitar ao índice de inflação. É preciso ver também o desemprego e a capacidade de consumo da população”, diz Mântega. O economista do PT admite que o estancamento do processo inflacionário “sempre causa uma recomposição para os salários”, mas desconfia que ela não será suficiente para dar um empurrão decisivo na candidatura FHC. Motivo: “A capacidade de consumo da população entra no real em um patamar muito baixo, que se agravará ainda mais nos 15 dias finais de junho”, calcula Mântega.” (grifos nossos)
Marco Aurélio Cunha, Quércia e Guido Mantega enfáticos e objetivos numa previsão que se mostrou furada. Mas Guido, o infatigável, voltaria à carga em julho de 1994, também atacando o Plano Real com suas previsões malucas. Vejam que graça:
“As fantasias do real – Diga-se o que quiser do Plano Real, pelo menos num aspecto ele foi bem sucedido. Conseguiu excitar a imaginação popular e passar a impressão de algo novo e diferente dos planos anteriores. Os arquitetos do real não pouparam sua imaginação para lançar velhas idéias com aparência de novas, como o Comitê da Moeda, Banco Central independente, ou a dolarização com conversibilidade, mesmo que nada disso tenha sido utilizado. Chegaram ao ponto de reinventar os reis ou reais, uma nova moeda fantasiada do dólar e garantida por um lastro que não exerce nenhum papel prático, uma vez que o real não é conversível, a não ser o de dar a impressão de que o real vale tanto quanto a moeda norte-americana. E todo esse barulho para quê. Para vestir com roupagens sofisticadas e muitos truques de ilusão, mais um ajuste tradicional, calcado no corte de gastos sociais, numa contração dos salários, num congelamento do câmbio e outros ativos e, sobretudo, num forte aperto monetário com taxas de juros estratosféricas (…) Portanto, mais do que um plano eficiente e bem concebido, o real é um jogo de aparências, que pode durar enquanto não ficar evidente que as contas do governo não vão fechar por causa dos juros altos, que o mercado sozinho não é capaz de conter os preços dos oligopólios sem uma coordenação das expectativas por parte do governo, que os salários não manterão o poder aquisitivo por muito tempo, que o real não vale tanto quanto o dólar. Mas não se deve subestimar a eficiência das aparências e dos jogos de prestigiação nas artimanhas eleitorais. As remarcações preventivas dos preços, junto com os congelamentos, permitirão uma inflação moderada em julho e, talvez, uma ainda menor em agosto, numa repetição da trajetória dos preços por ocasião da implantação da URV, que subiram muito em fevereiro, na véspera da fase dois, elevando os índices de inflação de março, e depois caíram em abril e só voltaram a subir em maio e junho. A questão é saber em quanto tempo o grosso da população irá perceber que uma inflação moderada por si só, acompanhada por um aperto monetário e recessão, não melhora sua situação, não cria empregos e, na ausência de uma lei salarial e correções automáticas, pode ser tão deletéria quanto uma inflação de 30% a 40% com indexação.” (grifos nossos)
O Plano Real, para Guido Mantega, seria uma fantasia, ideia velha com roupagem nova, moeda fantasiada de dólar, ajuste tradicional com truque de ilusão, jogo de aparências. Ainda classifica como artimanha eleitoral.
Esse é o gênio que agora comanda nossa economia. Sua capacidade analítica já era invejável em 1994, são quase duas décadas de intelecto economicamente irrepreensível – como deixa clara a inflação atual alarmante.
Guido retornou em agosto, sempre descendo o sarrafo no plano que estabilizou nossa economia:
“Estabilização sem arrocho – É possível baixar a inflação e elevar salários ao mesmo tempo? Os economistas ortodoxos e neoliberais acham impossível. E tanto insistiram nessa tecla, que tem conseguido convencer não só os desavisados, como também algumas mentes mais esclarecidas. Em artigo na página dois desta Folha (“Infelizmente uma mentira” de 31/07/94), o jornalista Gilberto Dimenstein reconhece que o Plano Real “não passa de um remendo”, no que estamos plenamente de acordo (…) É fácil perceber porque essa estratégia neoliberal de controle da inflação, além de ser burra e ineficiente, é socialmente perversa (…) Entretanto, existem sim alternativas mais eficientes de combate a inflação, que além de não serem recessivas, ainda permitem o aumento da renda dos trabalhadores (…) Teríamos a queda da inflação desde o dia em que esse grande acordo nacional fosse articulado. Uma queda concomitante de preços em vários setores chave da economia provocaria uma grande deflação, mesmo com o consumo em alta, uma vez que o aumento da produção é perfeitamente possível dadas as altas taxas de ociosidade hoje existentes na economia brasileira, entre 20% a 50%, dependendo do setor. E a redução dos juros estimularia o aumento dos investimentos, aumentando a capacidade produtiva” (grifos nossos)
Sim, você não leu errado. Mantega qualificando o plano de “burro”, mais uma vez fazendo análise furada e, agora pior ainda, mostrando que sabe como se controla a inflação sem medidas “neoliberais”.
Então porque não o faz hoje, já que ocupa o Ministério da Fazenda? Porque não sabe. Porque não é eficiente. Outra curiosidade é Gilberto Dimenstein atacando o Plano Real. A regra não falha: se Gilberto Dimenstein ataca algo ou alguém, é preciso dar uma chance a isso. Se ele é contra, sinto-me obrigado a descobrir que há de tão bom nessa coisa para ele não gostar. Raramente falha.
E essa patacoada de Guido Mantega obviamente foi cobrada pelo partido, pois Lula levou um sarrafo de FHC logo no primeiro turno (levaria outro em 1998, também de primeira). Diante das críticas, nosso herói veio novamente à FSP, no início de dezembro daquele ano, trazer seu sempre iluminado ponto de vista, agora com Jorge Mattoso:
“O PT, o Plano Real e as eleições – O Plano Real colocou o PT e a candidatura Lula numa sinuca de bico. Não pelas razões que alguns mais afoitos ou desejosos de capitalizar a derrota eleitoral têm apontado, mas porque deslocou o eixo da campanha para um terreno favorável ao candidato governista, dando a ele o benefício de apresentar resultados práticos, contra o discurso de mudança e os projetos para o futuro defendidos pelo PT. A adesão ao real foi rápida e emocional, descartando maiores reflexões sobre a eficácia do plano e suas consequências futuras. O forte esquema de mídia da candidatura oficial amplificou e consolidou as emoções, condicionando o eleitor a considerar as críticas ao plano obras de inimigo do real e ameaça aos sonhos de estabilização. Em contrapartida, elogiar o plano, ignorando seu caráter eleitoreiro além de enganoso reforçaria a idéia, difundida pelos adversários, de que FHC era o homem indicado para alcançar a estabilidade. Não é verdade que o PT subestimou seus adversários ou a eficácia do Plano Real no curto prazo, como querem crer Eduardo Suplicy e Paulo Nogueira Batista Jr. em artigo nesta Folha (…) O PT não se contenta com uma mera contraposição ao Real, onde ao monetarismo dolarizante deles opuséssemos um monetarismo nacional, ao lastro em dólar um lastro em ativos de empresas, ao Banco Central autônomo um “comitê de emissão” independente. Tampouco serão choques unilaterais ou projetos acadêmicos que darão conta da diversidade e dimensão dos problemas macroeconômicos nacionais. O Plano Real ainda não assumiu plenamente sua alma dolarizante por encontrar resistências geradas por uma economia de dimensão continental. Apesar de seu caráter precário deixa claro o (des) caminho futuro. A estratégia adotada reprimiu artificialmente a inflação através da valorização do câmbio, da abertura indiscriminada das importações, ancorada nas reservas disponíveis e na eventual entrada de capitais. Esta política mostrou seus limites na Argentina e no México, que vivem sob ameaça de desvalorização cambial e consequente explosão de preços, com desindustrialização, déficits da balança comercial, dependência do ingresso de recursos externos e efeitos perversos sobre o mercado de trabalho. Não é isso que o PT deseja para o Brasil!” (grifos nossos)
Como todos podem ver, Mantega insistiu e muito nesse ponto de vista sem pé nem cabeça. Não foi uma frase fora de contexto ou desabafo em momento de emoção, mas sim vários artigos analisando um colapso que não houve. E não deixa de causar espanto o fato de que Suplicy tenha sido, àquela altura, a voz da sabedoria na campanha petista. Não que diga muito sobre ele, mas definitivamente diz tudo sobre Guido Mantega (e hoje sabemos o que o PT deseja para o Brasil).
A briga entre as duas correntes continuou, como consta desta reportagem do final de dezembro de 1994:
“Aliado de Mercadante ataca livro de Suplicy; PT tenta abafar polêmica – O economista Guido Mantega, membro da equipe que formulou o programa econômico do PT, classificou de “intriga inoportuna” o livro assinado por cinco economistas do partido que atribui aos erros de avaliação sobre o Real um papel decisivo na derrota de Lula. Ligado ao deputado Aloizio Mercadante, principal alvo do livro, Mantega alega que os autores estão “forçando a barra ao fazer acusações pessoais a pretexto de estabelecer um debate no partido”. O livro, intitulado “‘Combate à Inflação, Plano Real e Campanha Eleitoral”, é assinado pelo senador Eduardo Suplicy, pelos economistas Paulo Nogueira Batista Jr. e João Machado, pelo vereador Odilon Guedes, pelo diretor da FGV de São Paulo, Luiz Carlos Merege. Segundo Mantega, os autores do livro “tentaram apresentar uma alternativa de estabilização tão liberal quanto o Plano Real durante a campanha e foram derrotados internamente pela maioria”. Para evitar que as divergências entre o grupo de Mercadante e seus críticos se transforme numa crise interna, a direção do PT iniciou ontem uma operação para abafar a repercussão do livro. “A direção do PT vai aconselhar o Aloizio para que não entre neste debate agora, com a cabeça quente”, disse o secretário-geral do partido, Gilberto Carvalho. “Não é hora de culpabilizar ninguém pela derrota de Lula e não parece ser este o propósito dos autores”, justificou Carvalho. O grupo de economistas ligados a Mercadante, entre os quais Mantega e Jorge Mattoso, já preparam uma resposta dura ao livro.” (grifos nossos)
Que coisa. Estavam todos aí já em 1994: Suplicy, Mantega, Mercadante, Gilberto Carvalho. E hoje os três últimos estão no governo – o primeiro exerce aquele período de oito anos cantando rap no plenário do Senado de vez em quando.
Não estamos a caminho do buraco de graça. A incompetência nunca foi minimamente escondida por esses sujeitos. Agora Dilma Rousseff tem um problema e tanto: acabar com o avanço da inflação e, ao mesmo tempo, apresentar as mudanças requeridas pela sociedade nas manifestações (que demandam investimento público e, assim, não permitirão medidas de estabilização econômica).
O que fará o governo? Uma pista: Guido Mantega é Ministro da Fazenda. Boa sorte a todos nós, vamos precisar de muita.
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