ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL: O Pai-Nosso - Se Liga na Informação





ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL: O Pai-Nosso

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E aconteceu que, estando ele a orar num certo lugar, quando acabou, lhe disse um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar [...]” Lc 11.1

Lucas 11.1-4 • “Essa passagem transmite uma mensagem muito simples. [...] A oração é a expressão do nosso relacionamento familiar com Deus. E as respostas às orações não dependem de alguém ter ou não cometido um erro ao recitar as palavras adequadas. Na verdade, as respostas à oração representam um transbordamento daquele permanente amor que Deus tem por nós, seus filhos.

Essa grande realidade nos dá a chave para entendermos aquilo que chamamos de Oração do Senhor (11.2-4).

• Pai. Nós nos aproximamos de Deus como de um Pai, profundamente conscientes de seu amor e compromisso conosco, e o respeitamos e amamos.

• Santificado seja o teu nome. Exaltamos a Deus e o louvamos pelo que Ele é. Saboreamos o privilégio de nos aproximar daquele que é o Senhor do Universo com nosso louvor e ações de graças.

 Venha o teu Reino. Afirmamos nossa submissão a Deus como Rei de um reino universal do qual somos cidadãos. Comprometemo-nos a viver aqui e agora em obediência ao Senhor, como se seu reino já tivesse sido estabelecido na terra.

• Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano. Reconhecemos nossa dependência do Senhor e alegremente colocamos nele toda a nossa confiança. Não pedimos hoje o suficiente para atender às necessidades do amanhã, pois sabemos que Deus é nosso Pai, e que podemos confiar plenamente nEle.

• Perdoa-nos nossos pecados. Reconhecemos as nossas imperfeições e fraquezas, e não dependemos dos supostos méritos de nossas obras, mas da disposição de Deus de nos perdoar. Demonstramos essa atitude através da boa vontade de tratar os outros como somos tratados por Deus; assim, “também perdoamos a qualquer que nos deve”.

• Não nos conduzas em tentação. Como Deus a ninguém tenta (Tg 1.13), aqui essa palavra deve ser entendida no sentido de “testar”. Esse pedido não revela qualquer dúvida de que Deus nos dará condições de vencer, e demostrar a nossa fé. Algumas pessoas são tão inseguras em seu relacionamento com Deus que procuram tentações para poder vencê-las, e assim se asseguram de que realmente pertencem ao Senhor. Deus permitirá que enfrentemos provas, e também dará o escape para que as possamos suportar (1 Co 10.13). Como confiamos que isso é verdade, não precisamos procurar nenhuma prova, mas expressar a nossa fé pedindo ao Senhor que nos livre das tentações.

Ao revermos esse modelo de oração, percebemos mais sobre a natureza da oração e sobre o relacionamento que a torna vital e verdadeira. Existe a confiança em Deus como Pai, existe a adoração e o reconhecimento de Deus pelo que Ele é em sua natureza. Existe um compromisso expresso de fazer a sua vontade, juntamente com a confiança de que Ele suprirá as nossas necessidades todos os dias. E, sobretudo, existe a maravilhosa consciência de que Ele cuida de nós em sua Graça; que o perdão dos pecados nos garante seu contínuo favor, e o acesso a Ele sempre que estivermos necessitados.” (RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2007, pp.167-68).

A oração do Pai-Nosso representa uma segurança, mas também um desafio aos discípulos do Senhor de todos os tempos.

O debate em torno da natureza da oração do Pai-Nosso é um daqueles em que há bons argumentos tanto de um lado quanto de outro. Defensores do Pai-Nosso como apenas um roteiro, e não como uma fórmula pronta, afirmam que tal ideia contraria o ensino do próprio Cristo em outras passagens. Para o outro grupo, não orar ipsis litteris tal como se encontra na passagem de Mateus 6.9-13, é um desrespeito com o texto e com Jesus que disse que devemos orar “assim”. Quem se apega a tais minúcias talvez esteja esquecendo o mais importante que é justamente orar. Mas meramente orar por costume. A oração pode ser mecânica, inclusive com repetições diuturnas, sem necessariamente ser igual a do Pai-Nosso. De igual forma, pode ser rotineira, mesmo parecendo espontânea. O essencial na oração é que ela brote de um coração que anseia pela comunhão com o Pai, desejando manter um relacionamento real com Ele ao mesmo tempo em que vai transformando o orante em alguém melhor no plano horizontal e comunitário. Quando a nossa vontade confunde-se com a de Deus, significa que o seu Reino já iniciou seu curso em nossa vida pessoal, podendo assim ser conhecido através de nós pelas pessoas que não servem a Deus.

ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA
O estudo do Pai-Nosso ocupa páginas e mais páginas de obras especializadas ou exclusivamente escritas sobre este único tema. Portanto, o papel de uma lição como esta, até por uma questão física, não vai além de comentar o cerne da oração do Senhor, deixando alguns detalhes importantes, do ponto de vista exegético, sem ser considerados. A despeito disso, é interessante apresentar o paralelo de Mateus 6.9-13 que se encontra em Lucas 11.1-4, observando duas propostas principais de divisão: temática e sistemática. Para tanto, reproduza, conforme suas possibilidades, o quadro abaixo, esclarecendo que essas são apenas duas possibilidades de estudo da “Oração do Senhor”:


TEXTO BÍBLICO: MATEUS 6 9-15

9 Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu;
11 O pão nosso de cada dia nos dá hoje; 12 E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; 13 E não nos conduzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.
14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; 15 Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.

INTRODUÇÃO

Embora “curta”, a belíssima oração do Senhor, também conhecida como Pai-Nosso, ou oração dominical, contém farto material de instrução bíblica e teológica. Há muito se dividem as opiniões acerca de ela ser uma oração para se repetir tal como o Mestre ensinou ou se constitui apenas um roteiro, ou esboço, que os crentes devem utilizar como forma de orientação de seus devocionais particulares ou na liturgia de um culto. O fato mais importante é que o Mestre orava e, com seu exemplo e suas palavras, ensinou seus discípulos a fazerem o mesmo, tanto na forma, quanto no conteúdo (Lc 11.1-4).

I. FILIAÇÃO DIVINA, RECONHECIMENTO DA SANTIDADE E A VINDA DO REINO

1. Paternidade celestial.
O Antigo Testamento registra pouquíssimas ocorrências em que Deus é, de forma inferida ou textual, chamado de Pai (Dt 32.6; 2Sm 7.14; 1Cr 17.13; Sl 68.5; Is 64.8; Jr 3.4; 31.20; Ml 1.6; 2.10). A novidade trazida pelo Senhor é a forma íntima como não apenas Ele se dirige ao Pai, mas também sua abertura a cada um de seus discípulos para que possam dirigir-se ao Criador da mesma forma. Ainda que reconhecendo sua grandeza e transcendência (“que estás nos céus”), o Mestre demonstra que o Pai não está longe, pois é “nosso” (v.9).

2. A santidade do nome divino.
A santificação do nome do Pai, não é de alguma coisa produzida pelo suplicante, ou seja, a santidade é intrínseca ao nome do Criador (v.9). Conforme o entendia a cultura judaica, o nome de Deus era inseparável da sua Pessoa (Êx 3.13,14; 20.7). Sendo santo, o nome do Pai, cabe a quem se dirige a Ele, respeitá-lo.

3. A vinda do Reino e a vontade divina cumprida integralmente.
A primeira súplica é definidora e norteia todo o restante. É importante notar que ela diz respeito à realidade divina e não terrenal. Pedir ao Pai, cujo nome é santo e a quem não se deve dirigir a palavra se esta não corresponde à intenção, para que o Reino dEle venha (v.10a), não contempla apenas um desejo escatológico ou de uma vinda futurística. O complemento do que se está suplicando revela claramente que se aspira que a vontade do Eterno Deus seja feita aqui (onde os seres humanos exercem sua vontade própria), tal como ela é realizada no céu, onde a vontade do Criador é ordem vigente e situação em curso (v.10b). E a prova de que o suplicante quer exatamente isso, é se em sua própria experiência de vida, no dia a dia, ele permite que a vontade divina seja prevalente (Rm 6.11 cf. Gl 2.20).

Aspirar pelo Reino de Deus significa estar disposto a abdicar, aqui e agora, das vontades terrenas que nos prendem ao materialismo e ao consumismo.

II. O ALIMENTO, O PERDÃO MÚTUO E O LIVRAMENTO

1. O alimento necessário, tanto para hoje quanto para o amanhã.
De acordo com os melhores especialistas da língua grega, a expressão epiousios (“cada dia”), contém três possibilidades de significação: pão necessário, pão diário e pão de amanhã (v.11). Dessa maneira, o primeiro pedido referente à realidade e necessidade terrenas tem um sentido bem mais profundo, pois leva em conta tanto aquilo que é urgente, quanto o que é necessário e até mesmo o desejo maior do discípulo, qual seja participar da Grande Ceia daquele Dia (Lc 14.15-24 cf. Mt 26.26-29). O pão de cada dia pedido para agora é, nesse caso, um desejo escatológico de que venha a plenitude do Reino, conforme pedido na primeira súplica referente à realidade divina.

2. Perdão divino e perdão no relacionamento interpessoal.
As bem-aventuranças precisam ser lembradas nesse ponto (Mt 5.3-12), pois elas mostram claramente a forma, ou perspectiva, segundo a qual os filhos do Reino veem todas as coisas. Assim, o que parece ser uma condição para ser perdoado por Deus é, na verdade, uma expressão do comportamento de quem encara as ofensas, insultos e até agressões, de forma perdoadora (v.12 cf. Mt 5.11,12). Justamente por ter aprendido com o Pai é que os filhos assim se comportam e, por isso, dirigem-se ao Senhor dessa maneira (1Jo 4.19). Uma vez que o Mestre estava ensinando os discípulos, mas considerando também uma audiência maior e, nesse caso, especificamente os fariseus, pelo fato de a piedade judaica possuir um conceito de perdão bastante restrito (tradicionalmente eram apenas três vezes que se deveria perdoar uma ofensa, Pedro “amplia” para sete tentando ser mais generoso, cf. Mt 18.21), Cristo então, depois de ensinar a oração, aí sim, considera a justiça dos fariseus e afirma ser uma condição para obter o perdão divino, exercer misericórdia e perdoar as pessoas (vv.14,15).

3. Livramento e queda.
A tradução literal desse texto dá uma ideia bastante negativa (Tg 1.13-15). Todavia, especialistas da língua grega defendem que uma tradução melhor revelaria que o que se quer dizer aqui é algo como “Não permitas que caia nas mãos do pecado” (v.13). Mas o sentido não é ser livrado da tentação em si, mas a última petição refere-se a não permitir que o suplicante caia em pecado, sucumba à provação e assim aparte-se de Deus (Lc 22.31,32 cf. Tg 1.2,3).

JESUS E A ORAÇÃO

A amizade com Deus
Deus sente prazer na nossa amizade: esse é o cerne da oração. Começamos a orar de fato quando consideramos a oração um privilégio, e não uma obrigação! É nisto que o Pai Nosso é tão saudável: ele começa relacionando-se com o Senhor e admirando-o (“Pai nosso, que estás nos céus”) antes de pedir alguma coisa. Tomemos Mateus 6.5-18 como nosso guia para orar e jejuar.

Você ora?
Observe que nosso Senhor presume que oramos: é “quando” oramos, não “se” orarmos!
A oração é uma parte regular e persistente de sua vida? Veja Lucas 18.1.
Nosso Senhor Jesus segue em frente e distingue a oração cristã de dois tipos equivocados de oração. Mateus 6.5,6 — ao contrário da oração do hipócrita — transforma Deus na única audiência da oração. Mateus 6.7,8 — ao contrário da oração pagã — é uma oração simples e clara, pois depende da disposição do Pai, e não da loquacidade da oração!

Orando com outros
Deus é única audiência: isso não fala de forma alguma contra orar em conjunto. Nessas instruções, Jesus alterna o uso do pronome no plural com o singular. Temos de orar sozinhos e temos de orar em conjunto. Jesus, na verdade, está presente de forma extra e nos dá poder extra para a oração conjunta dos cristãos. Veja Mateus 18.19,20. Mas quando oramos juntos, temos de orar para Deus!
Observe o valor da exclusão: “Entra no teu aposento e, fechando a tua porta”. Deixe tudo o mais de fora para estar com Deus.

As riquezas em oferta
Mateus 6 usa uma palavra maravilhosa para “aposento”. Ela indica uma despensa, um armazém no qual é guardado a munição [...], e um tesouro do qual são tiradas riquezas. A oração traz as coisas boas que Deus guarda para nós, a munição espiritual de que precisamos contra os ataques do Diabo, as riquezas que Cristo nos oferece em nossa necessidade.
Jesus também elogia a confiança semelhante à das crianças: “Vosso Pai sabe o que vos é necessário”. Veja Mateus 6.8 e Hebreus 11.6.

O Pai Nosso
A própria oração começa com adoração: Mateus 6.9. Isso é muitíssimo importante. Ela descentraliza nosso ego e põe Deus de volta no centro de nossa atenção. O segundo passo é identificar-se com as preocupações do Senhor: sua reputação, reinado e vontade. Veja os versículos 9 e 10. O terceiro passo é que temos de levar a Deus todas nossas preocupações pequenas ou grandes: nossa provisão, perdão e proteção (vv.11-13). É provável que o fim tradicional da oração não tenha sido dito por Jesus nem escrito por Mateus, mas, em todas as palavras, esse final é totalmente cristão louvando o reinado, o poder e a glória de Deus.

O jejum
Nosso Senhor, como na oração, presume que temos de jejuar: Mateus 6.16. O jejum é abster-se de alimento a fim de nos devotarmos a Deus. Mais uma vez, ele é mais bem visto como uma oportunidade, em vez de uma obrigação. Podemos pedir que Deus nos dê o fardo das necessidades específicas que são próximas ao coração dEle para que, de preferência, estejamos negociando com Ele, em vez de estarmos comendo. Não jejue “porque o cristão deve jejuar”! Tente jejuar quando tiver de tomar decisões vitais (Lucas 6.12,13) ou questões específicas a vencer para Deus (Esdras 8.21-23).
As questões vencidas para Deus: é disso que se trata o jejum e a oração. O tipo de amizade que é eficaz para o reinado e honra do Senhor. (Extraído do Livro Guia Cristão de Leitura da Bíblia, CPAD, p.547.)

Nossa cultura individualista reputa como uma fraqueza alguém não revidar à agressão, porém, quem se orienta pelos valores e justiça do Reino, deve ignorar o que se ensina a esse respeito.

III. A GLORIFICAÇÃO DO PAI NO FINAL DA ORAÇÃO

1. O Reino.
A oração termina com o reconhecimento de que o Reino é de Deus, e não propriedade dos homens (v.13). A despeito de muitos, de ontem e de hoje, pretenderem-se “donos” do Reino, ele continua sendo de Deus (Mt 23.13 cf. Mt 21.31).

2. O poder.
Os discípulos serão felizes se, tal como o salmista, conseguirem entender a mensagem de que “o poder pertence a Deus” (Sl 62.11).

3. A glória.
A glória pertence ao Senhor (Is 42.8). Qualquer oferta que venha com essa proposta, por mais sedutora que seja, é diabólica (Mt 4.8-10). O Mestre é a expressa imagem dessa glória que pertence somente ao Pai (1Jo 1.14).

Sendo o poder e a glória pertencentes a Deus, nada justifica a postura altiva daqueles que se dizem seguidores de Cristo.

CONCLUSÃO

A oração do Senhor tem uma intenção muito clara, ensinar aos discípulos a não orar como os hipócritas ou como os pagãos. A introdução no versículo nove demonstra isso: “Portanto”. Os que abraçaram o Evangelho de Jesus e aceitaram sua justiça devem orar exatamente assim.

SUBSÍDIO
O Perdão
“O perdão, essencial a uma vida vitoriosa, é nossa primeira e maior necessidade. Não importa com quanta diligência resistamos às tentações e quão fiéis sejamos no cumprimento de todas as nossas obrigações religiosas, ainda assim estamos aquém da justiça de Deus. Nenhum filho de Deus pode abrir mão de pedir ao Senhor que lhe perdoe os pecados. A pessoa justa aos próprios olhos não sente necessidade de pedir perdão a Deus, porém à medida que nos aproximamos mais de nosso Salvador e Senhor, mais sentimos um profundo senso de pecado e indignidade pessoal. [...].
Pedimos o perdão de Deus, ‘assim como nós perdoamos aos nossos devedores’ (Mt 6.12). A expressão ‘assim como’ não indica grau, visto que jamais poderemos perdoar com perfeição, somente Deus pode perdoar o pecado, mas podemos e devemos perdoar erros reais e imaginários cometidos contra nós. Não obstante, há uma comparação implícita nessa passagem. Quando estamos prontos a perdoar, a despeito de nossa condição de fraqueza e pecaminosidade, Deus está pronto, em sua santidade perfeita, a nos perdoar igualmente. Receber o perdão divino segue de mãos dadas com o ato de perdoar os outros. Só podemos receber o perdão, quando entendemos o princípio que o rege, e isto implica em não levar a mal o desinteresse que os outros demonstram pelo nosso insignificante ego (Mt 18.21-35)” (BICKET, Zenas J.; BRANDT, Robert L. Teologia Bíblica da Oração: O Espírito nos ajuda a orar. 6ª Edição. RJ: CPAD, 2013, pp.200-01).

Fonte: Lições Bíblicas CPAD Jovens - 2º trim.2017 - O Sermão do Monte - A Justiça sob a ótica de Jesus - Comentarista César Moisés Carvalho 

VEJA MAIS:

TEXTO DO DIA

“E aconteceu que, estando ele a orar num certo lugar, quando acabou, lhe disse um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar [...]” (Lc 11.1).

SÍNTESE

A oração do Pai-Nosso representa uma segurança, mas também um desafio aos discípulos do Senhor de todos os tempos.

OBJETIVOS

Após esta aula, o aluno deverá estar apto a:
VALORIZAR o Pai-Nosso, pois foi o próprio Filho de Deus que assim nos ensinou a orar;
REFLETIR acerca das sérias implicações contidas nas petições do Pai-Nosso;
REAFIRMAR a obrigatoriedade de reconhecermos que a glória pertence a Deus.

INTERAÇÃO

O debate em torno da natureza da oração do Pai-Nosso é um daqueles em que há bons argumentos tanto de um lado quanto de outro. Defensores do Pai-Nosso como apenas um roteiro, e não como uma fórmula pronta, afirmam que tal ideia contraria o ensino do próprio Cristo em outras passagens. Para o outro grupo, não orar ipsis litteris tal como se encontra na passagem de Mateus 6.9-13, é um desrespeito com o texto e com Jesus que disse que devemos orar “assim”. Quem se apega a tais minúcias talvez esteja esquecendo o mais importante que é justamente orar. Mas meramente orar por costume. A oração pode ser mecânica, inclusive com repetições diuturnas, sem necessariamente ser igual a do Pai-Nosso. De igual forma, pode ser rotineira, mesmo parecendo espontânea. O essencial na oração é que ela brote de um coração que anseia pela comunhão com o Pai, desejando manter um relacionamento real com Ele ao mesmo tempo em que vai transformando o orante em alguém melhor no plano horizontal e comunitário. Quando a nossa vontade confunde-se com a de Deus, significa que o seu Reino já iniciou seu curso em nossa vida pessoal, podendo assim ser conhecido através de nós pelas pessoas que não servem a Deus.

ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA

O estudo do Pai-Nosso ocupa páginas e mais páginas de obras especializadas ou exclusivamente escritas sobre este único tema. Portanto, o papel de uma lição como esta, até por uma questão física, não vai além de comentar o cerne da oração do Senhor, deixando alguns detalhes importantes, do ponto de vista exegético, sem ser considerados. A despeito disso, é interessante apresentar o paralelo de Mateus 6.9-13 que se encontra em Lucas 11.1-4, observando duas propostas principais de divisão: temática e sistemática. Para tanto, reproduza, conforme suas possibilidades, o quadro abaixo, esclarecendo que essas são apenas duas possibilidades de estudo da “Oração do Senhor”:



Comentário Bíblico Atos - Novo Testamento - Mt 6.

O judaísmo levara muito mais a sério a Oração regular do que as religiões grega e romana.
O problema não era a oração pública, mas a direção dada a seus motivos: outras pessoas ou divindades pagãs, de preferência a Deus. Talvez fosse comum a todos os piedosos recitar suas preces individualmente, na ^sinagoga. Ainda não ficou bem claro se, no tempo de Jesus, já oravam todos juntos, isto é, simultaneamente, em todas as sinagogas. A câmara pode ter sido uma sala de depósito. Muita gente não dispunha de quartos privativos em suas residências e apenas aquela sala teria uma porta. Orar de pé era uma postura comumente preferida.

Os sábios judeus, por essa época, debatiam o uso das Orações fixas. Para eles, se a intenção era boa, a oração seria aceita. No contexto da religião grega, o devoto reunia, em torno da mesma prece, todos os títulos possíveis da divindade evocada, na esperança de poder assim garantir para si a atenção dela (ou dele).
Traço típico da intercessão pagã era o devoto lembrar à divindade em questão os favores e sacrifícios oferecidos por ele, visando com isso obter da divindade uma resposta de base
contratual.

O judaísmo reconhece a onisciência de Deus. O tema aqui não era a doutrina dos ouvintes
de Jesus, mas o coração deles. O povo judeu via a Deus de maneira diferente daquela pela qual os gregos viam seus deuses .

No judaísmo, Deus era um Pai que se deleitava em satisfazer as necessidades de seu povo. O judaísmo também reconhece que Deus conhece todos os pensamentos de uma pessoa. Jesus proclama a eficácia da oração nas relações íntimas, coisa diferente do modelo de parceria nos negócios, mais próximo do modelo seguido pelo paganismo antigo.

O povo judeu em geral, nas suas orações, se dirigia a Deus como "nosso Pai Celestial", embora tratamentos de intimidade como "Abba" (papai, paizinho) fossem raros. Uma prece judaica padrão da época proclamava: "Exaltado e Santificado seja seu... nome... e que seu Reino venha rápido e chegue em breve".
As orações judaicas reconheciam que o nome de Deus seria "santificado", "consagrado", ou
reconhecido como "Santo" no final dos tempos, quando seu *Reino viesse, como a Bíblia também afirmou (Is 5.16; 29.23; Ez 36.23; 38.23; 39.7, 27; cf. Zc 14.9). Na atualidade, o povo de Deus poderia santificar-lhe o nome vivendo retamente. Vivendo no erro, estaria profanando o nome de Deus, ou o ofereceriam como objeto de disputa entre as nações (cf. também Êx 20.7; Jr 34.16; 44.25, 26; Ez 13.19; 20.14; Am 2.7).
Acreditava-se que, uma vez chegado o *Rei: no, a vontade de Deus seria cumprida na Terra como no Céu.

Este versículo alude à provisão divina do "pão de cada dia" (maná) para seu povo no deserto, após redimir esse povo pela primeira vez. Orar pedindo que Deus suprisse às necessidades básicas do suplicante - de que pão e água representam o derradeiro exemplo -era comum no mundo antigo (cf. Pv 30.8). A doutrina judaica considerava o pecado uma "dívida" para com Deus. A mesma palavra *aramaica poderia ser empregada nos dois sentidos. O preceito bíblico estabelecia perdão periódico do devedor de dinheiro (nos anos sétimo e qüinquagésimo), de maneira que a ilustração do perdão da dívida teria sido absolutamente inequívoca (sobretudo se considerarmos o fato de que os advogados judeus haviam descoberto um jeito de contornar a anulação do débito, de modo que os credores continuassem emprestando).

Comentário Devocional da Bíblia - Mateus 6-

Entendendo o Texto

“Teu Pai, que vê em secreto” (Mt 6.1-6). Mateus 6 repete a expressão “secreto” quatro vezes, e duas vezes enfatiza o fato de que Deus está “oculto”. Por quê? Porque Jesus deseja que compreendamos o nosso relacionamento com Deus como um relacionamento profundamente pessoal e íntimo, uma conexão do nosso coração com Ele. A religião não é uma questão de demonstração exterior.
Muitas pessoas frequentam a igreja e demonstram ser religiosas sem ter um relacionamento pessoal e secreto com o Senhor. Cristo deseja que compreendamos que, no seu Reino, o relacionamento com Deus deve ser real e pessoal, não como a “atuação” do hipócrita, que faz o que faz para impressionar outros seres humanos.

Visão Geral
Os cidadãos do Reino têm um relacionamento “secreto” com Deus (6.1-5), e sabem como (w. 6-8) e o que (w. 9-15) orar. Essa oração não tem nada a ver com demonstrações exteriores (w. 16-18). Com nossa atenção no céu (w. 19-24) e nossa confiança em Deus como Pai, somos livres para nos concentrar na vida do Reino (w. 25-34).
Pelo fato do relacionamento com Deus ser “secreto”, não devemos julgar os outros (7.1-6), mas devemos conscientemente confiar no nosso Pai (w. 7-12) e escolher a sua “porta estreita” (w. 13,14). Quando o fazemos, o poder de Deus é demonstrado na vida abençoada que vivemos (w. 15-23) e em nossa obediência (w. 24-29).

Essa ênfase em Mateus nos lembra de que precisamos dedicar algum tempo para alimentar nosso relacionamento secreto com o Senhor. Precisamos entrar no nosso aposento, fechar a porta e orar ao nosso Pai, “que está oculto”. Quando realmente alimentarmos esse relacionamento com o Senhor, poderemos ter certeza de que o nosso “Pai, que vê em secreto”, nos “recompensará”.
“E, orando” (Mt 6.7-13) Jesus não deu aos seus discípulos o que chamamos de Oração do Senhor para que nós a repetíssemos juntos quando nos reuníssemos na igreja. Ele a ensinou como um modelo, mostrando como cada um de nós deve orar “em segredo”.
Isso não quer dizer, é claro, que não devamos usá- la na igreja. O que isso significa é que precisamos explorar a oração padrão para discernir o que ela ensina, a você e a mim, sobre o desenvolvimento de um relacionamento “secreto” mais profundo com o nosso Deus. O desafio para explorar o significado é claro na comparação de Cristo com os pagãos, “que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos” por causa de suas “vãs repetições” (v. 7). Deus deseja que compreendamos a natureza da oração, e que dotemos a nossa oração de significado. 

“Se perdoardes aos homens as suas ofensas” (Mt6.14,15)- Alguns se incomodaram por Jesus dizer que Deus nos perdoará “se” perdoarmos “aos homens as suas ofensas”, mas não nos perdoará se não perdoarmos. Não é o evangelho as Boas-Novas de que Deus perdoa os nossos pecados, não por causa do que fazemos, mas porque Jesus morreu por nós? (cf.Efl.7; 4.32; Cl 1.14)
O conflito é aparente, e não real. As epístolas descrevem uma realidade teológica. O perdão é assegurado a todos os que creem verdadeiramente em Cristo. Aqui, Jesus descreveu uma realidade psicológica. O perdão é sentido somente por quem perdoa.
O perdão é como uma moeda. Uma moeda tem dois lados, cara e coroa. É impossível ter um único lado de uma moeda. O perdão é assim. Os seus dois lados são aceitação e concessão. Não podemos compreender um só lado dessa moeda. Uma pessoa humilde, que tem ciência das suas próprias fraquezas, e das dos outros, aceitará o perdão de Deus. Essa atitude de humildade, que nos liberta para sentirmos o perdão, é a mesma atitude que nos capacita a ter compaixão dos outros e a perdoá-los. Deus não perdoa os que não perdoam, porque não deseja fazê-lo. A nossa atitude rancorosa com relação aos outros nos impede de sentir o perdão que o nosso Pai deseja que conheçamos.

DEVOCIONAL Como Orar (Mt 6.5-13)

Qualquer pessoa que planeja construir uma casa deve ser prudente e examinar o projeto antes. Da mesma maneira, qualquer pessoa que procura desenvolver o seu relacionamento “secreto” com Deus deve ser prudente e estudar cuidadosamente a “Oração do Senhor” que Jesus ensinou. Ela revela as atitudes básicas com que você e eu devemos nos dirigir a Deus em oração. Observe como cada pedido nos ensina.
“Santificado seja o teu nome”. Nós reconhecemos a Deus como Ele se revelou. Expressamos o nosso respeito por Deus, sabendo que Ele é vivo e ativo, certos de que Ele é capaz de agir em nossa vida. “Venha o teu reino”. Nós reconhecemos a Deus como Rei justo sobre todos, e assumimos o nosso lugar como seus súditos. Fazemos uma escolha consciente de viver como cidadãos do seu reino, convidando-o a entrar plenamente em nossa vida, assim como no mundo todo.

“Seja feita a tua vontade”. Nós nos submetemos a Deus, decidindo obedecer à sua Palavra revelada, mas cientes de que também devemos ser sensíveis a qualquer orientação pessoal que Ele possa desejar nos dar por meio do seu Espírito Santo.
“Tanto na terra como no céu”. Esperamos que a vontade de Deus para nós tenha um impacto sobre o que fazemos aqui na terra. Não compartimentamos o “sagrado” e o “secular”, mas procuramos constantemente maneiras de honrar a Deus com nosso trabalho, nossa diversão, nosso relacionamento diário com outras pessoas.

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Nós confiamos tanto em Deus, que estamos seguros de que Ele suprirá todas as nossas necessidades a cada dia; assim, não somos levados a acumular tesouros na terra para o amanhã. Vemos cada novo dia como uma oportunidade para alguma nova experiência da bondade de Deus para conosco.
“Perdoa-nos as nossas dívidas”. Nós nos humilhamos diante de Deus. Estamos profundamente cientes de nossos erros e defeitos, mas nos alegramos por sermos amados mesmo assim. Ainda mais humilhados pelo amor misericordioso de Deus, temos compaixão daqueles que nos ferem ou nos prejudicam. Interpretamos essas ofensas como uma oportunidade para demonstrar a realidade da misericórdia de Deus, perdoando voluntariamente aos outros.

“Não nos induzas à tentação”. Nós descansamos em Deus. Sabemos que Ele nos liberta do mal e, embora não procuremos confrontação com o mal, sabemos que, quando as tentações vierem, Deus estará presente para nos livrar.
Quando dirigirmos a nossa oração “secreta” imbuída dessas profundas convicções, o nosso relacionamento pessoal com o Senhor certamente irá se aprofundar e crescer.

Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Tetamento

A Oração Secreta(6.5,6). Mais uma vez Jesus usa a forte palavra “hipócrita” para mostrar aos discípulos a antítese da justiça apropriada. De pé era postura de oração aceita entre os judeus — não é o que está sendo condenado. Nem é a oração pública o ponto da questão; Jesus orou na presença de outras pessoas (e.g., Mt 11.25,26) como o fez a igreja primitiva (e.g., At 4.24,31). Jesus está mais preocupado com a ardilosa orquestração de religiosidade. Na hora da oração, os espalhafatosos membros dos fariseus forjavam a aparência em lugares abarrotados de gente só para “mostrar” que eram santos. Jesus repete palavra por palavra a advertência solene: “Em verdade vos digo [amen] que já receberam o seu galardão” (v. 5).

Jesus conclama os discípulos a evitar a tentação do exibicionismo espiritual procedendo da seguinte maneira: Em suas respectivas casas, eles devem entrar no quarto interior (tamieion, em geral o quarto mais central, seguro e retirado numa casa judaica) e fechar ou chavear a porta. Lá, eles oram ao Pai em segredo, e o Pai que continuamente vê tudo os recompensará (Mt 6.6).

 A  Oração Vã (6.7,8). Jesus não apenas adverte os discípulos contra orar como os fariseus, mas Ele também os aconselha a não orarem como os gentios faziam — os quais, usando de vãs repetições, presumiam que seriam ouvidos “por muito falarem” (Mt 6.7). O termo “vãs repetições” (battalogeo) ocorre só aqui no Novo Testamento.  Contudo, nas raras ocorrências do termo em outras literaturas contemporâneas, pode significar conversa tola.

Jesus não está proferindo uma proibição contra toda repetição na oração; caso contrário os Salmos teriam que ser descartados, e a oração de Jesus no jardim do Getsêmani violaria o seu próprio princípio. Em outro lugar Jesus ensinou que o povo deve “orar sempre e nunca desfalecer”, no contexto de oração repetitiva (Lc 18.1-8). Ele também disse: “Continuai pedindo, e vos será dado”, também no contexto de oração (Mt 7.7a, tradução minha). A RC faz boa versão quando traduz Mateus 6.7 por: “Não useis de vãs repetições”. A referência aos gentios (ethnikos) é usada em Mateus na maioria das vezes em sentido negativo (veja também Mt 5.47; 18.17).
Que grande consolo é saber que Deus conhece nossas necessidades antes de expressarmos nossos pedidos. O assunto em questão não é repetição, mas relação. Os profetas de Baal chamavam e clamavam ao seu deus, pensando que gritos ruidosamente repetidos e auto-mutilação obteriam atenção e favor. Elias, que conhecia o verdadeiro Deus, orou simples e brevemente, e fogo caiu do céu (1 Rs 18.25-29). Os pagãos no mundo de Jesus recitavam muitos nomes divinos nas orações que faziam com a esperança de contatar uma entidade simpatizante na tentativa de ganhar poder sobre a deidade. Esta prática de magia ou manipulação é especificamente proibida no judaísmo e no cristianismo. Os atuais esforços em “usar” o nome de Jesus somente para obter o que quer que se queira tem mais laivos desta prática pagã do que o genuíno esforço de orar (cf. At 19-13-17). Repetição e decibéis não tomam Deus mais capaz de ouvir. Um deus com um déficit de atenção e deficiência de audição é um conceito pagão. Um bom pai se levanta atentamente pronto para ouvir o clamor dos filhos.

 A Oração do Senhor (6.9-15). Jesus não deixa os discípulos somente com uma lista de proibições, nem os entrega a seus próprios esquemas de oração. Ele oferece um padrão específico de oração. Uns consideram a Oração do Senhor mero esboço e, por conseguinte, recusam-se a fazê- la como uma oração decorada. É evidente que Jesus pretendia que orações improvisadas brotassem do seu exemplo, mas não há nada nesta passagem ou no paralelo lucano (Lc 11.1-4) que proíba o uso destas palavras de Jesus na oração congregacional e em particular. A Igreja que sucedeu a era apostólica entendia que esta oração seria recitada congregacionalmente, em cultos de adoração, e acreditava que ela estava preservando o padrão de adoração estabelecido pelos apóstolos.

A Oração do Senhor era parte integrante do culto de comunhão na igreja primitiva, como é atestada por Jerônimo, Ambrósio, Agostinho e Cirilo. O Didaquê cita a Oração do Senhor e ensina que o crente faça esta oração três vezes por dia (Didaquê 8.2,3). Este documento é datado de fins do século I e início do século II.

Mateus e Lucas incluem versões da Oração do Senhor. O contexto de Mateus está no Sermão da Montanha, com os discípulos e a multidão ouvindo. A versão de Lucas ocorre num lugar não revelado e em momentos de maior intimidade, quando os discípulos, vendo Jesus em oração, disseram: “Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos” (Lc 11.1). Os discípulos de Jesus estavam lhe pedindo que os ensinasse uma oração que, como a oração do movimento de João Batista, os identificasse distintamente como seguidores de Jesus. Em outras palavras, qual é o programa de trabalho para o seu Reino na oração? A versão de Lucas é menor que a de Mateus, mas ambas podem ter vindo diretamente do próprio Jesus, visto que Ele ia de aldeia em aldeia ensinando, indubitavelmente com variações e ajustes inspirados que aconteciam à medida que Ele falava.

Uma parte do que jesus ensinou nesta oração era original, enquanto que outras partes foram fundamentadas firmemente na prática inspirada do judaísmo. A estrutura básica da oração é paralela ao kadish aramaico, que era usado na sinagoga (veja Jeremias, 1967, p. 98).

A primeira metade da Oração do Senhor (w. 9,10) atém-se em honrar a Deus e seu Reino. A outra metade (w. 11-13) consiste em pedidos pelas necessidades pessoais dos discípulos. Esta segunda parte assemelha-se em conteúdo e estrutura à oração judaica das Dezoito Bênçãos, ainda que as orações de Jesus sejam mais concisas e breves. Comentaremos as contribuições exclusivas de Jesus à medida que cada parte da oração for analisada.

 “Pai nosso, que estás nos céus” (6.9a). Não era incomum os judeus considerarem Deus como Pai de Israel, mas como Pai de indivíduos numa relação especial era bastante inusitada. Esta experiência pai/filho era característica da relação de Jesus com Deus. Jesus chama Deus de “meu Pai” treze vezes em Mateus. Até este ponto ao longo do Sermão da Montanha Jesus fala aos seus seguidores que eles compartilham uma experiência de família com Deus como Pai celestial, e com os outros como irmãos (Mt 5.9,16,22,23,45,47,48; 6.1,3,6,8). Embora seja palavra de cunho familiar, a expressão de Mateus: “Nosso Pai, que estás nos céus” é mais respeitável que o simples “Pai” de Lucas.

Reconstruindo a oração no idioma original aramaico, Jeremias sugere que o abrupto “Pai” de Lucas possa ter sido “Aba” (ternio familiar como “papai” ou “papá”; cf. o uso de Aba em Mc 14.36; Rm 8.15; G14.6). Isto mostra a intimidade única de Jesus com o Pai. Se Aba foi a palavra original usada por Jesus, então o contexto em Lucas assume maior significado: À medida que os discípulos estavam pedindo uma oração especial que os identificasse como seguidores do Reino de Jesus distinguindo-os dos outros grupos, Jesus está dizendo que o modo exclusivo de seus seguidores se dirigirem a Deus é como eles o fazem quando usam Aba. Se Aba também foi a intenção na versão de Mateus, então Deus é simultaneamente íntimo e generoso, ainda que poderoso e transcendente. Os cristãos na oração estão subindo ao colo do Construtor das galáxias, acariciando-lhe a bochecha e fazendo-lhe seus pedidos. A chave para a relação entre os cristãos e seu Deus é abordá-lo como Pai amoroso.

“Santificado seja o teu nome” (6.9b). A força da palavra “santificado” em hebraico, aramaico e grego é “ser santo” ou “ser santificado". Santidade significa primariamente ser posto de lado para propósito especial. No caso de Deus Ele é “o completamente outro”. Isto expressa o respeito hebraico pelo nome de Deus que apareceu na sarça ardente, quando Moisés perguntou o nome de Deus e recebeu a resposta: “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14). Não foi dado a Moisés um nome que ele pudesse usar magicamente para manipular Deus na concessão de pedidos. Deus respondeu afirmando sua existência. Os judeus dos dias de Jesus tremiam diante do nome de Javé e reverentemente usavam Adonai (Senhor). O nome de Deus e a pessoa de Deus são inseparáveis no pensamento hebraico (e.g., Êx 3-13,14; Is 52.6). Profanar o nome de Deus era profanar sua pessoa. Tal temeridade de semelhança pagã foi expressamente proibida no Decálogo (Êx 20.7).

Embora os cristãos tenham recebido o direito íntimo e familiar de se dirigirem a Deus por Aba, eles não o fazem atrevidamente, pois até este nome familiar é sagrado. Ele não é pai excessivamente tolerante; como já se disse: “Deus é Pai, e não avô!” Na igreja primitiva só depois de a pessoa ter se submetido a extenso período de instrução, oração, jejum e batismo, era-lhe permitido fazer a oração sagrada na primeira comunhão e dizer: “Pai!”

 “Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu” (6.10). Esta estrutura paralela é o que se esperaria de um mestre judeu habituado com a poesia hebraica. No paralelismo sinônimo, a primeira linha é repetida na segunda, mas a segunda acrescenta reflexão e insight ao pensamento original. É o que ocorre neste versículo. Esta petição também tem paralelo no kadish  (oração judaica) citada acima. Como visto na estrutura paralela das bem aventuranças, este versículo provém da petição paralela que a antecede. Deus santifica seu nome arquitetando seu Reino em atos salvadores na história, de forma que os habitantes de terra digam: “Ele é o Deus vivo e para sempre permanente, e o seu reino não se pode destruir; o seu domínio é até ao fim” (Dn 6.26).

A expressão: “Venha o teu Reino” fixa o tom claramente escatológico, orientando os ouvintes ao cumprimento do tempo do fim no estabelecimento final do reinado de Deus no mundo. Requer o fim de toda instituição humana que não esteja em conformidade com a vontade de Deus. Este era princípio grandemente revolucionário para ser proferido no Império Romano do século I. Subseqüentemente seus seguidores desafiariam os grandes césares romanos. O mesmo se dá hoje se esta oração for dita e vivenciada com seriedade, pois ela lança o cristão contra muitas instituições e estilos de vida comumente aceitos.
É incorreto supor que esta chamada da vinda do Reino de Deus seja simples abdicação da ordem mundial dos dias atuais até que, no “meigo tchau-tchau”, Deus eventualmente apareça para corrigir o sistema mundial.
1) A força do modo imperativo e do aspecto aoristo atinge o alvo da imediatidade e irrevogabilidade das demandas das normas de Deus: “Que o teu Reino venha, seja agora e para sempre”.
2) A expressão adicionada “tanto na terra como no céu” compensa estrutural e tematicamente a parelha de versos. A mensagem de Jesus aqui não é que o Reino está “em algum lugar, por aí”, numa dimensão espiritual que não afeta o mundo material e histórico no qual vivemos. O Reino concebido na mente do Infinito Criador do tempo pode, deve e tomará forma neste mundo mesmo no instante em que o leitor está respirando ao ler esta
página. Em cada momento, em cada respiração que tomamos de Deus, nosso Senhor pergunta: “Tu deixarás que meu Reino venha?” Para orar sinceramente: “Venha o teu Reino”, o discípulo tem de dizer: “Vá o meu reino”.
Esta revolução de reino radical não deve ser apenas imposta nas ações dos governos mundiais, mas também na vida atual de cada discípulo, que é chamado para vivenciar o reino transformador de vidas fazendo a próxima coisa certa. A força da gramática é novamente: “Que a tua vontade seja feita na minha vida agora”. Esta é característica da natureza dual do Reino dos Céus conforme é ensinada por Jesus e seus sucessores: num sentido já está, em outro ainda virá.

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje” (6.11). A primeira metade da oração aborda a glória e vontade de Deus, ao passo que as outras petições concernem às necessidades físicas e bem- estar espiritual dos discípulos. Certamente Jesus quer que esta oração seja modelo de toda oração cristã não só em conteúdo, mas também em forma e ordem. É apropriado que o louvor a Deus e o reconhecimento de sua soberania no mundo venham em primeiro lugar na oração. Sem a primeira metade, ela se assemelha a simples lista de compras, e para algumas pessoas Deus é reduzido a mero moço de recados, obrigado a suprir todo capricho humano. Com toda a familiaridade da Oração do Senhor, ela não compromete a norma universal de Deus. Súplicas, pedidos pessoais e intercessões devem ser acompanhadas pelo espírito de ação de graças (1 Tm 2.1).
A segunda metade constata que os discípulos são um povo necessitado, totalmente dependente da provisão graciosa de Deus. Uma vez mais, esta parte do Sermão da Montanha remonta à bem- aventurança inicial: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5.3). O discípulo verdadeiramente humilde reconhece que está moral e espiritualmente arruinado, à parte do exemplo e recursos de Deus para o viver santo.

Lucas registra o verbo “dar” no modo imperativo (.didou), ao mesmo tempo que Mateus registra o tempo imperativo do aoristo (dos). Assim, a versão lucana significa “Dá-nos continuamente a cada dia”, enquanto que a versão de Mateus revela mais urgência: “Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia”. O discípulo é visto como alguém que está na dependência total da misericórdia de Deus para a próxima refeição.
O termo “de cada dia” (epiousios) é raro tanto no Novo Testamento quanto nos escritos seculares daquele tempo; também pode significar “amanhã”. 

O tradutor latino Jerônimo, escrevendo no século IV, nota que a obra não canônica do Evangelho aos Hebreus usou a palavra aramaica neste ponto para aludir ao termo “amanhã” na Oração do Senhor. Se esta é a tradução correta de epiousios, então alguns fatores estão em ação:
1) Pode ser referência às bodas messiânicas do tempo do fim. O solicitante está pedindo o cumprimento do Reino agora. A consumação do seu Reino resulta em abundância de comida (e.g., Is 55.1,2; 61.1-6).
2)0 pedido para o suprimento do pão de amanhâ não enfraquece necessariamente a impressão de que o discípulo é totalmente dependente de Deus. Ele proveu para hoje, Ele pode prover para amanhã. E provavelmente intencional o paralelo da provisão diária de Deus do maná no deserto. No aspecto prático de uma casa palestina daqueles dias, seria necessária a provisão de comida na véspera para a preparação da mesma para o dia seguinte.
3) O pão simboliza todas as necessidades materiais. Em Mateus 6.24-34 Jesus explica a necessidade de depender de Deus para as necessidades básicas. A despeito do intento original da palavra epiousios (diariamente/amanhã), tanto a aplicação escatológica quanto a vigente estão evidentes no contexto de Mateus.

 “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (6.12,14,15). Esta parte da oração explana algumas das bem- aventuranças. Exprime a mensagem inicial de João Batista e Jesus na seção anterior
do Evangelho (Mt 3.8; 4.17). Confissão e arrependimento de pecados são marcas do verdadeiro discípulo; farisaísmo e presunção espiritual são severamente criticados. A penetrabiliclade do pecado conforme exposta por Jesus, faz o leitor lembrar a bem-aventurança dos “pobres de espírito”, porque eles cometeram pecado e estão em necessidade de perdão diário. Esta oração penitencial também sugere tristeza pelo pecado bem como admissão de culpa; da mesma forma está evidente a segunda característica do discipulado apresentada nas bem-aventuranças: “Bem-aventurados os que choram” (Mt 5.4).

A palavra “dívidas” é tradução literal de opheilema, palavra grega que se refere a obrigações financeiras, mas a palavra semítica original por trás dela usava a palavra “dívida” como expressão referente a pecado. “Transgressões” é tradução melhor. A oração registrada por Lucas diz: “Perdoa-nos os nossos pecados" (Lc 11.4; ênfase minha), exprimindo o intento original. Mateus 6.14,15 indica que Jesus tinha em mente pecados (paraptoma), e não simples dívidas financeiras. As Dezoito Bênçãos do judaísmo também pedem o perdão de Deus, mas não menciona o perdão dos outros.
O ensinamento de Jesus é espesso com as boas notícias do perdão de Deus e também com a chamada para os discípulos A perdoarem os que os ofenderam. Se o programa do Reino é perdão e restauração, então como embaixadores do Reino somos chamados a participar no programa de anistia até às nossas custas (2 Co 5.18-20). Os atos de perdão dos discípulos são os do Pai pelo poder do Espírito Santo: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e, àqueles a quem os retiverdes, lhes são retidos” (Jo 20.22,23; veja também At 7.60).

“Assim como nós perdoamos aos nossos devedores” também se edifica sobre as bem-aventuranças. Os discípulos perdoados têm fome do conceito de Deus de justiça que inclui misericórdia, e não retribuição humana colérica (Mt 5.6).

os misericordiosos receberão misericórdia (Mt 5.7). Os que têm motivos puros (Mt 5.8), os pacificadores (Mt 5.9) que podem sofrer perseguição (Mt 5.10), serão chamados “filhos do Pai”, pois como Ele eles perdoam.
Alguns cristãos ficaram incomodados com a significação deste versículo, visto que o perdão que recebemos é dependente do perdão que damos aos outros, mas este é o significado do comparativo “assim como” (hõs). Além disso, os versículos 14 e 15 dão ênfase à causa e efeito de perdoar e ser perdoado: “Se perdoardes [...], também vosso Pai celestial vos perdoará. [...] Se [...] não perdoardes [...], também vosso Pai vos não perdoará [...]”. A sensata parábola de Jesus acerca do servo que foi perdoado mas não perdoou torna a conclusão inevitável (Mt 18.21-35). O perdão do servo incompassivo foi revogado: “Assim vos fará também meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu iimão, as suas ofensas” (Mt 18.35; cf. também Mc 11.25,26; Lc 11.4; Tg 2.14-26). Não se trata de legalismo ou salvação por obras, pois tal perdão requer uma dotação miraculosa da graça de Deus e uma capacitação que vêm de um coração transformado (Rm 12.1,2; 2 Co 5.17). =

 “E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal” (6.13a). Este pedido tem paralelo na oração matinal talmúdica, mas se já existia e era usada por Jesus não podemos ter certeza. Como no relato da tentação (Mt 4.1-11), o verbo “tentar” (peirazo) pode significar “testar, provar” em sentido neutro, bem como “induzir para o mal”. A primeira acepção é mais apropriada aqui. No sentido de provar a fé, a prova é iniciada por Deus (e.g., Gn 22.1-19; Êx 15.25; 16.4; Dt 8.2-6; SI 26.2). Provar também resulta em instrução, edificação e temperamento, que produz caráter e redunda em recompensa (Eclesiástico 2.1-6; Sabedoria 3.5; Tg 2.12; 1 Pe 1.6; Ap 2.10). Não obstante, a origem da prova nem sempre é de Deus, mas dos desejos maus (Tg 1.14), dos inimigos da fé e do Diabo(Mt4.1-11;Lc4.1; 1 Co7.5; 10.6- 13); Entretanto, Deus pode usar tudo para o bem (Rm 8.28).
Provar também tem uma dimensão escatológica que certamente segue o pedido: “Venha o teu Reino”. O Dia do Senhor resulta em grande e terrível julgamento, bem como em grande e alegre recompensa. Este tema do julgamento, separação do bem e do mal, aparece com freqüência em Mateus; é um dos seus principais interesses e razões em escrever o Evangelho (Mt 3-7-12;13.24-30,36-43,47-50; 25.14-46).
O pedido de ser poupado da prova é forte com o subjuntivo aoristo negativo, que significa: “Não comeces a nos pôr em prova”. Os discípulos desejam evitar a tentação, não porque não confiem em Deus, mas porque eles sabem que sem Deus têm deploráveis recursos para resistir ao mal. Conseqüentemente eles também oram por livramento ou salvamento oportuno da possibilidade da tentação pelo “mal” ou “o Diabo”. Esta atitude humilde foi apresentada anteriormente em duas das bem- aventuranças: “Bem-aventurados os pobres de espírito” (Mt 5.3), que reconhecem total dependência de Deus no âmbito da justiça; e: “Bem-aventurados os misericordiosos” (Mt 5.7), visto que o discípulos percebem que a vontade e a perseverança são pequenas e que estão desesperadamente carentes da fortificação de Deus.

“Porque teu é o Reino, e o poder, e aglória, para sempre. Amém!” (6.13b). A doxologia final não é achada nas cópias mais antigas e melhores de Mateus, nem se encontra na maioria dos manuscritos do paralelo em Lucas. Aparece depois da Oração do Senhor no Didaquê 8.2 (escrito em c. 100 d.C.). A doxologia era provavelmente uma resposta cristã de louvor e afirmação que seguia a Oração do Senhor na adoração. Sua forma litúrgica apareceu nas cópias gregas mais tardias de Mateus, sendo incorporada em nossas versões.




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