O conceito de cultura, derivado
do latim, pressupõe o cultivo a algo. Cultivar nada mais é do que
repassar, através de gerações, um conhecimento, crença ou tradição de
respectiva comunidade. Diante de uma determinada cultura, aprendemos
aspectos acerca de costumes locais, ações realizadas para um determinado
fim e assim até mesmo nós estabelecemos um panorama para a criação de
identidade de certo grupo. Com a relação existente entre vários grupos
ou comunidades, há a incidência de um multiculturalismo, ou seja, várias
culturas presentes em campo determinado. Adiante, iremos tratar os
aspectos do multiculturalismo: do eurocentrismo em que a cultura é
tratada como homogeneizante, penetrando pelo conhecimento disciplinar
prejudicial, a necessidade dos estudos culturais, os significados deste
multiculturalismo e o conceito de pós-colonialismo.
Immanuel Wallerstein
taxa a ciência social como eurocêntrica no decorrer de sua história.
Esta afirmação é senhora no capítulo décimo primeiro do livro “O fim do
mundo como concebemos: Ciência social para o século XXI”, quando aborda a
questão do eurocentrismo. Segundo o autor, cinco são as “acusações”
atestadoras de tal fator. A primeira “acusação” parte do pressuposto que
a historiografia tem se pautado nas conquistas dos europeus no mundo
moderno. Sob qualquer olhar, as inovações propostas pela Europa sempre
são boas. Este argumento sustenta também as conquistas, o domínio do
capital e, claro, do saber dos europeus perante aos demais. Ou seja,
partir (e pensar) do pensamento europeu sempre é bom. Assim, surge a
segunda “acusação”, no tocante da produção européia ser considerada
universal (universalismo). Tal provincianismo é inerente à ciência
social, visto deste “padrão europeu universal”, assumido nos passos da
história. O terceiro postulado é a civilização, opondo ao barbarismo ou
ao primitivismo os demais. Desse modo, quem não é da Europa pode ser
tratado como “nativo”, pertencente a outro grupo ou clã, não dotado dos
mesmos valores da educação dominante. O orientalismo é o ponto chave da
quarta “acusação”, pautando a discussão em torno de uma disputa entre os
interesses de ambos. Por fim, a última “acusação” surge pelo progresso,
inspirado no iluminismo e desenvolvimento de todas as etapas.
Ainda nesta linha de
pensamento, Edward Said afirma que a relação entre o colonizador e o
colonizado é intrigante, vez que o colonizado assume posição secundária e
sua representação pode não ser a exata, da maneira como era , já que o colonizador traduz o colonizado, evidenciando a visão do seu trabalho de campo. O colonizado assim é definido:
“Pobreza, dependência,
subdesenvolvimento, variadas patologias de poder e corrupção e, por
outro lado, realizações notáveis de guerra, na alfabetização, no
desenvolvimento econômico: essa mistura de características assinalava os
povos colonizados que se haviam libertado em um nível, mas permaneciam
vítimas de seu passado em outro” (Said, 2003: 115).
Esta passagem de
“Reflexões sobre o exílio” nos remete ao paradoxo do colonizado: ora se
desenvolve, ora é refém do colonizador (europeu?). O antropólogo não
realiza mais o trabalho de campo como outrora. Alguns fatores, como por
exemplo a globalização, impedem uma definição apenas com o olhar do
antropólogo-colonizador de um determinado interlocutor, cabendo bem mais
ponderar o que de fato será exposto. A crítica realizada por Said se
encontra justamente nessa posição, em que cobra da antropologia um
trabalho fiel, ilustrando com vigor o lugar do colonizado, até mesmo a
defesa de divulgação ampla de alguns posicionamentos.
Ainda
neste debate sobre a importância da disseminação das culturas por
intermédio do multiculturalismo, Henry A. Giroux critica o conhecimento
disciplinar, contrapondo-se então aos vários especialistas produzidos.
Segundo Giroux:
“A sabedoria convencional dos acadêmicos
é deixar que os membros de outros departamentos façam o que quer que
seja seu trabalho de maneira que quiserem – contanto que este direito
lhes seja garantido. Como conseqüência destes desenvolvimentos, o estudo
da cultura é conduzido em fragmentos” (Giroux, 1997: 179).
Assim, dividindo-se
as disciplinas, o saber fica restrito numa relação
pesquisador/especialidade, especialidade/pesquisador, uma vida de mão
dupla em que a diversidade não é explorada.
Os estudos sobre a
cultura tomam grande importância para Giroux. Considerar algo melhor ou
pior, comparado com outro, por exemplo, é perigoso, vez que toda cultura
possui sua importância e deveria ser exposta de modo relacional, não
competitivo. Logo, qualquer projeto de hierarquizar culturas deve ser
abolido, sendo alguma cultura melhor, ou determinada pela política,
ética, cessando que os estudos culturais ofereçam o importante de cada
área. Por conseguinte, estes estudos produzem nos pesquisadores “uma
análise continuada de suas próprias existências” (Giroux, 1997, p. 185).
O papel do
intelectual, ainda para Giroux, deveria ser o do “intelectual
transformador”, no sentido de proporcionar “liderança moral, política e
pedagógica”, ou seja, ao invés da condição de líder intelectual,
repolitizar o conhecimento e ampliá-lo não apenas para os membros de uma
mesma área de atuação, mas também para os demais pesquisadores
interessados em compreender os diversos tipos de conhecimento. Assim,
este “intelectual transformador” luta contra o status quo e as normas estabelecidas, aumentando os horizontes das pesquisas e o espaço de ação cultural.
Stuart Hall define
alguns tipos de multiculturalismo: conservador, liberal, pluralista,
comercial, corporativo e crítico. O multiculturalismo conservador
pressupõe a assimilação da diferença às tradições e costumes da maioria,
aceitando-as e respeitando-as. O liberal insere a minoria nos padrões
da maioria, com as diferenças toleradas no campo privado, sem
reconhecê-lo na esfera pública. Já o pluralista pondera que cada grupo
deve viver em separado, ou seja, cada qual com sua identidade, não se
relacionando com os demais. O multiculturalismo comercial argumenta que
as diferenças surgem em nichos de mercado, dada a importância de
fornecer os desejos destes nichos. Atender aos anseios das minorias para
estancá-las é a missão do multiculturalismo corporativo. Este
estancamento supõe o domínio da maioria. E, o modelo defendido por Hall
(crítico), interroga as relações de poder e as desigualdades entre os
grupos. Assim, qual multiculturalismo seguir? Ou então devemos respeitar
todas estes rostos multiculturais? Hall indaga:
“Na verdade, o “multiculturalismo” não é
uma única doutrina, não caracteriza uma estratégia política e não
representa um estado de coisas já alcançado. Não é uma força disfarçada
de endossar algum estado ideal ou utópico. Descreve uma série de
processos e estratégias políticas sempre inacabados.” (Hall, 2003: p.
52-53).
“O devido
reconhecimento não é uma mera cortesia que devemos conceder às pessoas. É
uma necessidade humana vital” (Taylor, p. 242). Deste modo, Charles
Taylor defende a “política do reconhecimento”, como molde de nossa
identidade, com o reconhecimento errôneo sendo até mesmo prejudicial à
construção desta identidade pessoal. Neste raciocínio, o autor valoriza a
originalidade e a opinião de cada pessoa, salientando que cada um
“sempre tem algo a dizer”, em certa medida, enfatizando a subjetividade e
o indivíduo, o reconhecendo nos múltiplos níveis. O reconhecimento,
então, ganhou destaque pelo diálogo realizado consigo mesmo com outros
significativos e também no plano público, com esta política realizando o
papel universalista dos indivíduos. Reconhecer nada mais é do que
propiciar peso às querelas do multiculturalismo.
Com os debates
ocorrendo em torno de o grandioso centro gerar sua periferia, dividindo o
mundo em duas partes com a existência do centro delimitando o que é
periférico, Thomas Bonnici sugere dar voz aos colonizados, ressaltando
as diferenças das colônias com os impérios no emergir da personalidade
nacional. Ou seja, pós-colonialismo para Bonnici é buscar alternativas
para o discurso do “império”, reinterpretando-o e garantir voz ao
colonizado oprimido, na ciência, história e literatura nacionais, um
processo enfático do agora independente.
Estas diversas
anotações sobre o multiculturalismo apresentam uma face deveras salutar
para discuti-lo. Afastando o eurocentrismo das ciências sociais,
combatido por Wallerstein e também as impressões do colonizador acerca
dos colonizados, como dito por Said, o tema multicultural deve ser
anotado, observando que há sim a necessidade de respeitar e
principalmente dialogar, não criando pirâmides hierárquicas das culturas
e disciplinando as culturas como partições independentes. A ótica de
estudo multicultural deve transcender os laços do local, buscando em
novas culturas a diferença, importante para a formação intelectual de
cada um. Assim, não só haverá o reconhecimento das diferenças de
cultura, mas um reconhecimento valorizado das vozes outrora sufocadas
por culturas aqui entendidas como dominantes.
Bibliografia
BONNICI, Thomas. Teoria Literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2. ed. Maringá: EDUEM, 2005.
GIROUX, Henry A. Os professores como intelectuais: Rumo a uma aprendizagem crítica da aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Editora Schwarz, 2003.
TAYLOR, Charles. Argumentos Filosóficos. São Paulo: Edições Loyola.
WALLERSTEIN, Immanuel. O fim do mundo como concebemos: Ciência Social para o século XXI. Editora Revan
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