Teori anula parte das escutas de Lula e manda inquéritos para Moro
Diálogo do ex-presidente com Dilma não poderá ser usado como prova
BRASÍLIA
— O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), devolveu, nesta
segunda-feira, para as mãos do juiz Sérgio Moro as investigações sobre o
ex-presidente Lula que estavam no tribunal. Na mesma decisão, Teori anulou
parte das escutas telefônicas em conversas do ex-presidente depois do período
autorizado por Sérgio Moro. Não poderá ser usado como prova judicial, portanto, o diálogo entre Lula e a presidente afastada, Dilma Rousseff,
em que ela dizia que estava enviando por um emissário o termo de posse do
ex-presidente como ministro da Casa Civil, o que lhe daria foro privilegiado e
o livraria de um eventual pedido de prisão na primeira instância.
Conversa entre Dilma e Lula
Ao
todo, foram enviados para Moro três petições, três inquéritos e dez ações
cautelares. Todos os processos estão sob sigilo. Entre os casos que foram
enviados para Moro está o inquérito sobre o sítio de Atibaia e o tríplex do
Guarujá, ambos em São Paulo. Lula seria o usuário dos imóveis e teria sido
beneficiado com melhorias promovidas por empreiteiras investigadas na
Lava-Jato. A transferência do foro das investigações foi decidida a pedido da
Procuradoria-Geral da República (PGR). Casos de Jaques Wagner, Edinho Silva, Ideli Salvati, Delcídio Amaral e
José Sérgio Gabrielli também foram para Curitiba.
Ainda
está no STF o inquérito em que Lula foi denunciado junto com o ex-senador
Delcídio Amaral; o ex-assessor (de Delcídio) Diogo Ferreira; o advogado Edson
Ribeiro; o banqueiro André Esteves; o pecuarista José Carlos Bumlai e o filho
dele, Maurício Bumlai. Teori ainda não decidiu, mas a tendência é que o
inquérito também seja enviado para Moro, porque não há mais ninguém com direito
ao foro privilegiado nas investigações.
Teori
manteve no STF o pedido de abertura de inquérito contra Dilma feito pela PGR,
por conta do foro especial. Ele ainda não decidiu se abre as investigações. O
caso também está protegido pelo segredo de justiça.
COMPETÊNCIA
DO STF FOI VIOLADA
No
caso das gravações, os investigadores da Lava-Jato interpretaram o diálogo
entre Lula e Dilma como uma forma de obstrução da Justiça. Isso porque a
presidente afastada teria tido a intenção de dar foro especial a Lula, para
responder a processos da Lava-Jato no STF, e não na primeira instância do
Judiciário. As investigações foram transferidas para o tribunal e, agora,
voltarão para a primeira instância.
Na decisão, Teori explicou que Moro deveria ter interrompido as
investigações, e as enviado ao STF, quando se deparou com agentes públicos com
direito ao foro especial — como, por exemplo, a presidente Dilma. “Com efeito,
a violação da competência do Supremo Tribunal se deu no mesmo momento em que o
juízo reclamado, ao se deparar com possível envolvimento de autoridade
detentora de foro na prática de crime, deixou de encaminhar a este Supremo
Tribunal Federal o procedimento investigatório para análise do conteúdo interceptado”,
escreveu o ministro.
Para Teori, foi “grave” o fato de Moro ter
feito juízo de valor sobre condutas de ocupantes de cargos com direito ao foro
especial e sobre as provas quando os processos já não estavam mais em suas
mãos. O ministro também reprovou o levantamento do sigilo das conversas
interceptadas, “sem adotar as cautelas previstas no ordenamento normativo de
regência, assumindo, com isso, o risco de comprometer seriamente o resultado
válido da investigação”.
CRÍTICAS À CONDUTA DE MORO
Segundo o ministro, “a decisão proferida pelo
magistrado reclamado (Moro) está juridicamente comprometida, não só em razão da
usurpação de competência, mas também, de maneira ainda mais clara, pelo
levantamento de sigilo das conversações telefônicas interceptadas",
escreveu o ministro do STF.
“Foi também precoce e, pelo menos
parcialmente, equivocada a decisão que adiantou juízo de validade das
interceptações, colhidas, em parte importante, sem abrigo judicial, quando já
havia determinação de interrupção das escutas”, concluiu Teori.
A conversa entre Dilma e Lula foi a mais
polêmica das interceptadas pela Lava-Jato. Ela recomendava ao antecessor que
usasse o termo de posse se considerasse necessário. Lula ainda não tinha tomado
posse, mas já tinha sido nomeado para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil.
A autorização para os investigadores gravarem
conversas telefônicas do ex-presidente tinha validade até o dia 16 de março às
11h12. No entanto, o diálogo entre Lula e a presidente ocorreu às 13h32 do
mesmo dia. “Mesmo assim, sem remeter os autos a esta Corte, o juízo reclamado
determinou o levantamento do sigilo das conversações”, reclamou Teori.
O ministro esclareceu que serão anuladas
apenas as provas colhidas depois do horário autorizado por Moro. Ele
acrescentou que “não se está fazendo juízo de valor, nem positivo e nem
negativo, sobre o restante do conteúdo interceptado, pois isso extrapolaria o
objeto próprio da presente reclamação”. Teori explicou que todas as provas,
mesmo as colhidas no horário autorizado, podem ser contestadas na Justiça.
LULA FOI DENUNCIADO EM MARÇO
O ex-presidente foi denunciado em março deste
ano pelo Ministério Público de São Paulo. Na denúncia, que também pede prisão
preventiva, Lula é acusado de cometer os crimes de lavagem de dinheiro e
falsidade ideológica no caso do tríplexo 164-A, do condomínio Solaris, no
Guarujá. Para os procuradores, Lula é o real proprietário do imóvel, que
recebeu reformas no valor de R$ 1 milhão pagas pela construtora OAS. Os
investigadores suspeitam que a obra tenha sido uma forma de retribuição por
vantagens indevidas na participação do esquema de desvios de dinheiro da
Petrobras. A empreiteira fechou contratos de mais de R$ 7 bilhões com a estatal
entre 2007 e 2012. Lula nega ser o proprietário do tríplex.
O ex-presidente nega também ser dono do sítio
Santa Bárbara, em Atibaia, no interior de São Paulo, que frequenta com a
família desde 2011, quando deixou a Presidência. O sítio está em nome de
Fernando Bittar e Jonas Suassuna, que é sócio do filho do ex-presidente, Fábio
Luís Lula da Silva, o Lulinha, na empresa BR4 Participações. O Ministério
Público Federal acredita que a OAS tenha feito obras de contenção de um lago e
comprado móveis para a cozinha. A construtora Odebrecht também teria
participado da reforma do local.
Os negócios de Lula com as empreiteiras são
alvo de investigação da Lava-Jato, que suspeita que o ex-presidente tenha sido
um dos beneficiários do esquema na Petrobras. Na 24ª fase da operação, em
março, Lula foi levado para prestar esclarecimentos à Polícia
Federal. Autorizada por Moro, a condução coercitiva do ex-presidente
foi alvo de críticas de petistas, assim como as escutas telefônicas do
ex-presidente divulgadas posteriormente.
Os investigadores queriam informações sobre pagamentos de R$ 30,7 milhões feitos por empreiteiras envolvidas nas
fraudes à Petrobras ao Instituto Lula e a LILS Palestras, empresa que pertence
a Lula. Além da OAS, Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, UTC e Queiroz
Galvão doaram R$ 20,7 milhões ao instituto e pagaram R$ 9,920 milhões por
palestras entre 2011 e 2014. A OAS chegou a pagar US$ 200 mil dólares por uma
conferência do ex-presidente.
Fonte: O Globo

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