Quem é Filho de Deus, verdadeiramente? - Se Liga na Informação



Quem é Filho de Deus, verdadeiramente?

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Por Eliandro da Costa Cordeiro
Mt. 4:1-11
Ninguém está livre da tentação. Fiéis e infiéis, igualmente a sofrem. Os fiéis com mais agudeza devido ao seu desejo sincero de agradar a Deus. Os infiéis sofrem-na menos, pois sua vontade já está comprometida consigo mesmos e com o próprio deleite de se entregar à tentação.
O fiel vê, na sua tentação, o motivo para obediência, enquanto o infiel, na sua fraqueza, o motivo para exigir de Deus o seu direito de filho.
Para se entender a Tentação:
Jesus, como o Filho fiel, nos ensina que quem é filho de Deus não manda, não determina nem exige; obedece.
Se o crente fiel sofre com mais veemência a tentação, nosso amado Salvador deve tê-la sentido de tal maneira como nenhum de nós jamais a sentiremos. Jesus é o Filho de Deus, de quem o próprio Deus disse sentir verdadeiro prazer. Se, por nossa “pequena fidelidade” a Deus, o rogamos por direito à proteção e benção divinas, o que não pensar de Jesus ao ser tentado pelo diabo, a fim de demonstrar a sua obediência ao Pai?
Há algumas considerações que nos deixariam perplexos, na leitura desse texto. Elas são: (a) – Cristo é tentado após o seu batismo; (b) – é “levado pelo Espírito Santo ao deserto”. Isso indica que era da vontade de Deus a sua tentação; (c) – há um aparente paradoxo: o Amado é tentado pelo Amante! Poderíamos pensar: será que Deus de fato ama o seu Filho? Por que alguém seria tentado depois de uma decisão tão séria quanto o batismo? Por que um filho sofreria se o seu pai diz amá-lo da forma como se vê expressa?
Segundo os Evangelhos, o Filho ouve, logo depois de seu batismo, que é amado pelo Pai e, como demonstração visível desse amor, é compelido pelo próprio Espírito ao deserto, a fim de ser tentado! Que tipo de amor é esse? Tasker é capaz de nos explicar, ao dizer que a tentação do Senhor no deserto era uma só: “a tentação de confiar na primeira parte da mensagem dita pela voz celestial à hora de seu batismo a ponto de se poder evitar o caminho traçado para Ele na segunda parte da mesma.”[1]
Em Jesus, Israel veria a verdadeira perfeição, a inteira obediência que um filho de Deus lhe deve.Nesse sentido, tudo aquilo que Israel não foi para com Deus, no Egito (devido à sua desobediência), Cristo, o verdadeiro Filho, foi e, sendo tentado,  venceu (Hb. 5:8).
É importante saber que, o tipo de tentação sofrida por Jesus não foi uma questão de duvidar do amor do Pai. Satanás tenta-O com aquilo que sabe que Jesus jamais teria dúvida: Deus lhe é o verdadeiro Pai!
Nota-se que o diabo valeu-se da costumeira tentação às avessas, ou seja, Jesus foi tentado naquilo que não duvidava: Deus era o seu Pai. Ele era o verdadeiro Filho de Deus.
Satanás diz a Jesus: “se tu és filho […].” A partícula “se” introduz uma frase condicional que toma por certo que a condição é uma realidade e que a conclusão acompanha a lógica e, naturalmente, acompanha aquela suposição. Resulta lógico afirmar que o diabo toma por certo que Jesus é Filho de Deus e se vale desta certeza para o tentar. Logo, o Filho não é tentado naquilo de que poderia duvidar, mas naquilo em que crê.
Se Jesus, sendo Filho verdadeiro de Deus, foi tentado e venceu obedientemente, o que Deus espera de mim? O que Jesus nos ensina acerca da nossa posição de filhos de Deus e da nossa triste realidade humana, cheia de lutas e provações?
Procura-se uma abordagem do relacionamento existente entre Deus e filhos a partir da Filiação Real  na natureza Jesus e Deus. Abordaremos aspectos da posição de Cristo frente às afrontas miseráveis dos vícios de suas criaturas, capazes de silenciar a alma nesse caminho de lutas, provas e tentações.
A posição do poder: tentação às avessas
Jesus nos ensina que nem sempre somos tentados naquilo em que duvidamos, mas, sim, naquilo em que mais cremos (3:17; 4:1, 10,11). Isso se verifica quando o diabo procura levar Jesus a requerer de Deus o seu direito legal de divindade. Se Deus é pai, e faz milagres, e Jesus é Filho, por que não transformar pedra em pães?  Jesus parece ter de vencer a insinuação diabólica de  duvidar, não de que seja filho de Deus, mas de que Deus seja bom pai. A tentação procura levar o Senhor a um patamar do qual Ele sabia e não queria pisar: ser filho de Deus não é ter aval para ir além do que deveria ser: obediente.
O que isso significa hoje? Não estaria Cristo nos ensinando qual deve ser o comportamento dos seus filhos neste mundo consumista, o qual, muitas vezes, os levam ao mesmo fim? Jesus não exigiu do Pai cuidado e proteção, pão, estrada pavimentada. Não pediu caminho difícil ou fácil, mas demonstrou que ser filho de Deus não é se encontrar em condições de exigências, antes, de humilde obediência demonstrativa de fé e posse de tudo aquilo que o Pai tem (Lc. 15:31;Jo. 17:1-10).
Constantemente, a mídia mostra que muitos crentes têm errado não só por duvidar do poder de Deus, mas, principalmente, por explorar o que dele diz crer! São tentativas e determinações a Deus intermináveis, pedidos de curas, riquezas, empregos e outros. Esquecendo-nos de que, muitas vezes, tais programas envolvem a má fé de seus apresentadores. O que se nota não é a dúvida de que se é filho de Deus, mas a prepotência em sê-lo.
Revendo a posição do poder
Jesus nos ensina que melhor do que transformar pedra em pão é aprender a se desviar das pedras do caminho (6,7).
Jesus é Filho que lê e conhece os propósitos que o Pai tem para com os seus filhos. Ele sabe que as pedras são retiradas do caminho pela Palavra, em toda a sua inteireza, e não somente naquilo que convém ao homem.
As pedras que deveriam tornar-se pães significariam a possibilidade de obter o pão sem Deus. E comer o pão sem Deus é tornar-se escravo do diabo, trabalhar a troco do pão. Jesus não acredita que é possível ser feliz, viver verdadeiramente ausente de Deus (Sl. 123:1ss; 127:1ss; 145:15).
É necessário observar que a maneira pela qual Cristo supera cada etapa da tentação é citando, não só pequenos textos das Escrituras, mas toda a extensão que mareja a sua compreensão. Ele não apela às emoções, às necessidades do corpo ou da espiritualidade. Ele assume o risco de se viver a Palavra em toda a sua extensidade e intensidade: “está escrito”.
O tentador, por sua vez, experimenta o uso da Palavra somente no aspecto em que esta lhe faz sentido à necessidade imediata: glória, fome, poder. Isso deveria nos lembrar do risco que vivemos quando aplicamos apenas partes da Palavra Eterna à nossa vida. Ela perde o seu propósito e só nos servirá de tropeço. Conforme Agostinho de Hipona, “se você crê naquilo que nos evangelhos é de seu agrado e rejeita aquilo de que não gosta, não é nos evangelhos que você crê – mas em si próprio”.
Desse modo, a tentação serve para que se descubra que ou se é pedra, ou se tem pedras.
O próprio Cristo era uma pedra para o diabo, difícil de ser engolida como pão (4:11). O que autenticou a “hermenêutica” de nosso Senhor foi a sua prática. Tem-se aqui o contraste entre o Filho e o tentador. O tentador faz a exposição “sobre” a Palavra de Deus. Em contrapartida, Jesus “vive” a Palavra de Deus (Tg. 1:23,25). O diabo é um bom teólogo, melhor do que muitos, mas não pode arrogar-se filho de Deus.[2]
Não há demérito na exposição da  Palavra, uma vez que ambos, o tentador e Jesus, a expuseram. O apontamento está no alcance da Palavra. Não se trata de simples aprofundamento nas Escrituras, mas do quanto elas se aprofundaram no Filho. Elas se tornaram o próprio Filho (Jo.1:1ss)! Cristo as encarna.
Bonhoeffer salienta que “a resposta de Jesus com a Palavra de Deus evidencia, primeiro, que também, o próprio Filho de Deus está sob o domínio da Palavra de Deus e que não lhe assiste direito próprio ao lado desta Palavra jamais”.[3]
Ora, Jesus tornou-se uma pedra intransponível para o diabo. Ser pedra para o diabo não tirou as pedras do caminho do Filho de Deus, mas o ajudou a se desviar daquelas que não edificariam a catedral da vontade divina.
O diabo oferece a Jesus uma pedra a fim de este poder verificar se Deus é um Pai cuidadoso (6a). Jesus, porém, não quer colocar ou tirar as pedras de seu caminho. Ele só quer fazer de sua obediência motivos para a satisfação Paterna (Is. 53:10; Jo. 5:30; 6:38-40).
Jesus ensina que quem obedece não tropeça em pedras; muitas das vezes, não porque o Pai o impede de “tropicar”, mas porque a obediência filial inclina o crente à prudência quanto ao pecado (Jó. 1:8; Sl1:1ss; 17:5; 37:23; 119:9-11; Pv. 16:6,7,17). Jesus não quer as pedras para ter o Pão, nem o Pão sem as pedras; ele quer o caminho da obediência. Assim, Jesus é, tanto quanto tem, pedra no caminho.
Serve-nos de consolo e ensino de que ser filho de Deus não implica não desejar o pão ou fugir das pedras, mas significa trilhar o caminho da cruz como pedra diante da tentação do diabo, e sempre com fome de Deus (Sl. 42:1ss; Is. 19:13; Mt. 21:42; Mc. 12:10; Jo.6:57; IPe. 2:4,7,8).
Provando da posição do poder: A Palavra e o Pão do Pai como sinônimos
Jesus nos ensina que ser filho não é querer o pão ou o caminho sem pedras, mas a Palavra que alimenta e guia (4,6). Ele concebe o pão como dom e não como uma possessão. Todas as bênçãos e providências vêm das mãos do Pai (Mt.6).
O Filho, ao recusar a proposta de Satanás, infere que querer a Deus por pão é igualá-lo ao diabo. Deus não compra a adoração de ninguém! Ao dizer que “nem só de pão o homem viverá”, fica implícito que sem ele, também, não se vive; razão de Satanás tentar ao Senhor, exatamente, na carência óbvia dos homens (fome).
No entanto, se “nem só de pão o homem viverá”, resulta lógico que, assim como sem o pão o homem não vive, sem Deus (o Pão Essencial do existencial humano) também não se vive, e tanto menos se é!
Mas, “Satanás sabe empregar a Palavra de Deus como armas na luta”[4], nos lembra Bonhoeffer.
Nos lábios do diabo, a Palavra de Deus serve para justificar o caminho do sucesso fácil, do domínio e do prestígio espetacular. A “linha” de Jesus contrapõe-se a esta. Jesus sabe que o seu caminho deve ser o de fidelidade radical a Deus. Cristo não se revelará verdadeiro Filho de Deus se receber ou fizer milagres e perceber ter um ministério de sucesso. Não se trata de uma proteção segura . Com toda a segurança de uma paternidade divina, sem contradições ou limites humanos, o sucesso é simples e fácil. Cristo rouba qualquer pretexto para acusações acerca de suas lutas.Não foi tentado naquilo que não possuía; mas naquilo que sabia ser seu (Mt. 9:51).
Jesus poderia ter sido dono do mundo, ele poderia ter libertado os judeus de Israel, qual o messias tão sonhado, conduzido o povo escolhido para a glória e para o prestígio. Ele poderia ter entrado no mundo como rei visível e festejado. Um homem esquisito este ao qual no início de seu ministério é oferecido o domínio sobre o mundo. E mais estranho é que ele tenha recusado a proposta.[5]
A tentação pressupõe igualdade de existência de “ser” e valores qualitatíveis. A religião, nas mãos do diabo, é mera troca de experiências de ambas as partes: Deus e homens. O que serve de totem entre os dois seres são a existência percebida pelo sofrimento e a necessidade de se provar amor. No entanto, Jesus recusa a perversão do relacionamento religioso proposto pelo diabo (Mt. 11:9; 11:11).

A última tentação é em Jerusalém. É nessa cidade que o Filho irá para a cruz; onde Satanás quer trocar a cena de humilhação pela cena de glória.
O tentador quer desviar Cristo de seu caminho em direção à cruz sob a alegação de se poder ter a glória antecipada sem a necessidade de se passar pela crucificação. Mas é na liberdade submissa de Jesus que Ele revela o seu profundo e autêntico traço de filiação divina. Jesus recusa a proposta do diabo: “por trás do poder, está a escravidão”.
De que forma essa cena se aproxima de nossa realidade? Ainda hoje, nossos cultos e espiritualidade, quando não se desenvolvem em barganhas, determinações a Deus, sob prerrogativas de sermos filhos do Rei, pensamos que não é justo sofrermos privações! Tornamos o Deus e Pai de Jesus em um deus gênio de nossos sonhos e caprichos pessoais.
A exemplo de Jesus, busquemos a satisfação do Pai e não a nossa! O Pai não quer demonstrações de fé públicas ou privadas, determinações ou adorações extravagantes desprovidas de obediência (Sl. 51:16ss; Mc.12:33)!
É claro que o cristão não quer um caminho de pedras ou só o pão no caminho, sem o Deus que o dá. Entretanto, tão certo quanto as pedras no caminho é o Pão servido por Deus ao fim de cada tentação vivida obedientemente (Mt. 25:34; Rm. 5:815:1; ICo. 10:13; Hb. 11:17; Tg. 1:12).[6]
A verdadeira posição do poder: filiação
Jesus ensina que o crente só está em condições de dar ordens quando a adoração única é prestada a Deus. Não se trata de uma obediência fria nem teórica; é prática. Além de apresentar eficiente interpretação hermenêutica, Jesus demonstra clara vida piedosa.
Ao contrário do que Satanás poderia pensar, Jesus sabe fazer uso do direito de ser o Filho de Deus. Depois de demonstrar obediência ao Pai, Jesus dá ordem a Satanás: “Vai-te, Satanás”. E o diabo foi! Foi-se depois de se perceber derrotado pela obediência do Senhor (a obediência é arma poderosa nas mãos dos filhos! Tg. 4:7,8).
Jesus havia sido tentado a manipular o Pai (5,6). Contudo, sabia que Deus não precisa provar que é Deus (fazer milagres) para provar que Jesus é o seu Filho (Dt. 8:1-6; 4:5-8; 6:10-15). Nesse sentido, Deus não se reduz a uma força que se pode manipular em favor próprio.
O que expulsou o diabo? Um Filho de Deus que demonstrou a sua filiação não pela proteção que revelaria a sua credencial (Tg. 4:7), mas a sua obediência lhe deu a credencial de Filho. Satanás também sabe a Palavra, o que ele não sabe, não quer e não pode é obedecê-la. E isso só o nosso Senhor soube até o fim (Fl. 2:8)!
Aceitar a proposta de Satanás na tentação implica por em dúvida a Palavra de Deus. Tal dúvida pode surgir até mesmo devido o seu extremo oposto, isto é, a certeza de que se é filho. Foi a tal certeza o elemento que o diabo utilizou para tentar o
Salvador. A pior de sua arma não foi fome, incerteza, espiritualidade, mas a própria Palavra de Deus.
Jesus, o Deus-homem se viu sobre o único alicerce, que é as Escrituras. Esse é o alicerce que o tentador tenta “sacolejar” e deixar falso sob os pés do Salvador. Ser tentado no corpo, no espírito, em todas as esferas existentes enquanto Deus-homem seria irresistível se se usasse a própria Palavra contra Jesus. Essa tática tornaria a tentação bela, teológica e legal aos olhos do fiel. Todavia, por trás de tal beleza “tentacional” está um Filho de Deus tentado “na carne, na fé e na sua soberania divina”.
Que belo exemplo Jesus nos deixa! Ser filho de Deus não nos dá ensejo para a invasão da santidade divina, exigências, direitos de proteção e imunidade às dores e lutas neste caminho de pedras.
Descobre-se que a semelhança da última fase da tentação de nosso Senhor se encontra na adoração, pois a exemplo do diabo, o homem caído em pecado pode fazer da adoração a Deus a sua própria adoração.[7]Jesus, ao prender-se à fé na verdade das Escrituras, demonstra que o seu ego é o mesmo que o de Deus: fidelidade.
Sintamo-nos, hoje, tentados à obediência permanente, comportemo-nos como verdadeiros filhos de Deus e sirvamos de tropeço às ações do diabo. Pois, quem é filho de Deus não manda; obedece!
NOTAS
[1]   TASKER, R.V.G. Mateus, introdução e comentário. Mundo Cristão, São Paulo, 1980, p.41.
[2]   STRONG,A.Hopkins. Teologia Sistemática. Hagnos: São Paulo, 2003, V.1, p.680: “O guardador de uma jovem tigre deu uns tapinhas de carinho na cabeça dela e ela lambeu as mãos dele. Mas quando ela se tornou mais velha agarrou a sua mãos e começou a morder. Ele puxou a sua mão em cortes. Aprendeu a não acariciar um tigre. Aprendamos a não acariciar a Satanás. Não “ignore os seus ardis” (2Co.2.11)”.
[3]   BONHOEFFER, Dietrich. Tentação. Metrópoles, Porto Alegre, 1968, pp.53,54.
[4] BONHOEFFER, Dietrich. Tentação. Metrópoles, Porto Alegre, 1968,p.52.
[5] BONHOEFFER, Dietrich. Tentação. Metrópoles, Porto Alegre, 1968,p.36.
[6]   BONHOEFFER, Dietrich. Tentação. Metrópoles, Porto Alegre, 1968, p.32: “Satisfaz o homem, dá-lhe pão e depois lhe fala de Deus e ele há de escutar. Sim, os homens hão de endeusar-te porque lhes deste de comer”.
[7]     BONHOEFFER, Dietrich. Tentação. Metrópoles, Porto Alegre, 1968, p.33: “Para que possuis este poder se não o usas? […] Eis, que não só tu passas fome, mas milhões de pessoas morrem de fome e os seus olhos se dirigem àquele que lhes dão de comer. Eles são fracos e incapazes de se entusiasmarem por ti, por Deus, se não primeiramente lhes deres o pão. Todos eles esperam num deus […], mas sempre é seu desejo que lhes dê de comer. Então sim, deixarão tudo e te seguirão […] te adorarão”.

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