“O Verbo era Deus” ou “A Palavra era um deus”? - Se Liga na Informação



“O Verbo era Deus” ou “A Palavra era um deus”?

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No evangelho de João, capítulo 1, verso 1, há uma grande diferença entre as versões mais comuns, da TNM – Tradução do Novo Mundo (“Bíblia” das Testemunhas de Jeová). Vejamos:

1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus - RA (grifo nosso)
1 No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era um deus. – TNM (grifo nosso)

Neste caso há um problema sério com a divindade de Cristo. Para a TNM Jesus deixa de ser o Deus verdadeiro para ser um “deus menor”.
O problema está na inserção de um artigo indefinido “um” antes da palavra “Deus”. Este artigo indefinido não aparece no texto original das Escrituras Sagradas. Todas as vezes que um artigo indefinido aparece na bíblia ele foi colocado no caso de não sabermos de quem se trata o sujeito, e não quando sabemos de quem estamos falando.

Para fazermos um estudo mais aprofundado na gramática grega precisamos definir alguns termos.

Primeiro, devemos rever algumas terminologias básicas por serem úteis.
•         Anarthro = sem artigo
•         Pré-Verbal = antes do verbo de ligação
•         Nominativo Predicativo (NP)

Portanto, um nominativo predicativo pré-verbal anarthro é um tipo de nominativo articular e precedido de verbo de ligação. Esse tipo de construção foi investigada por Ernest Cadman Colwell em seu famoso artigo de 1933. Em suma, consideraremos cada construção nominativa predicativa pré-verbal anarthra como uma “Construção de Colwell” (embora não necessariamente se encaixe na regra de Colwell).

Em Jo 1:1, lemos: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος. Na última parte do verso, na oração καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος (Jo 1:1c), (θεός – Deus) é o NP, pois é anarthro e precede o verbo;
A pergunta é: (Θεός – Deus) em Jo 1:1c Indefinido?
Se θεός fosse indefinido, teríamos a tradução: um deus” (como a Tradução do Novo Mundo [TNM]). Se for assim, a implicação teológica seria uma forma de politeísmo, talvez sugerindo que o Verbo fosse meramente um deus secundário em um panteão de divindades.
O argumento gramatical de que o NP aqui seja indefinido é fraco. Por várias vezes, aqueles que defendem essa posição (em particular os tradutores da TNM) assim o fazem somente baseados no fato de ser o termo anarthro. Eles, todavia, são inconsistentes, como R. H. Countess aponta:
No NT há 282 ocorrências de θεός anarthro. Em 16 lugares, a TNM tem um deus, deus, ou deuses. Em 16 das 282 vezes, seus tradutores foram fiéis a seu princípio, somente seis por cento das vezes.…
A primeira seção de Jo 1:1–18 oferece um lúcido exemplo da arbitrariedade do dogmatismo da TNM. Θεός ocorre oito vezes, versículos 1, 2, 6, 12, 13, 18, das quais apenas duas vezes vem acompanhado de artigo, ou seja, os vv. 1, 2.

Das 8 vezes que isso ocorre somente neste trecho, a TNM:
 6 vezes traduziu “Deus”
1 vez, “um deus”
1 vez, “o deus”

Se expandirmos a discussão a outros termos anarthros no Prólogo Joanino, observaremos outras inconsistências: É interessante que a Tradução do Novo Mundo traduza θεός como “um deus” sobre a base simplista da ausência do artigo (o que, sem dúvida, é insuficiente). Seguindo o princípio “anarthro = indefinido”, teríamos: ἀρχῇ significaria “um princípio” (1:1, 2); ζωή, “uma vida” (1:4); παρὰ θεοῦ, “de um deus” (1:6); Ἰωάννης, “um João” (1:6); θεόν, “um deus” (1:18) etc. Todavia, nenhum desses anarthros foram traduzidos com artigo indefinido. O que resta é suspeitar-se fortemente das bases teológicas de tal tradução.
Segundo Dixon, se θεός fosse indefinido em Jo 1:1, seria o único NP pré-verbal anarthro no Evangelho de João. Embora tenhamos discutido ser isso um tanto exagerado, o ponto geral é válido: A noção indefinida é atestadamente a mais pobre para o NP pré-verbal anarthro. Assim, gramaticalmente tal significado é improvável. O contexto também sugere essa improbabilidade, pois o Verbo já existia no princípio. Assim, é altamente improvável, pelo contexto e pela gramática, que o Logos fosse, de acordo com João, “um deus”. Finalmente, a própria teologia do evangelista milita contra esse ponto de vista, o que há é uma Cristologia exaltada no Quarto Evangelho, a ponto de Jesus Cristo ser identificado como Deus (cf. 5:23; 8:58; 10:30; 20:28 etc.).


Autor: Tarles Elias

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